Textos

A bruxaria da criação literária

Entrevista do escritor Urariano Mota a Marco Albertim

–  Conheci-o morando solitário numa pensão, na Boa Vista. Lendo Em busca do tempo perdido, comprando discos de jazz mesmo sem ter radiola em casa. O que mais o impressionou, então: Proust, Ella Fitzgerald ou as virtudes da inquilina do quarto vizinho?

Morei em duas pensões, na Boa Vista. Uma, cujo prédio não existe mais, ficava na Princesa Isabel,  na área do Parque 13 de maio. A outra, ficava no cruzamento da João de Barros com a Suassuna, onde hoje está uma faculdade de direito. Eu não sei em qual delas eu fui mais angustiado, sozinho. Mas sem qualquer ética ou ideal de solidão. Na Pensão Princesa Isabel, enquanto subia a escada para um quartinho isolado lá no alto, da televisão da sala vinha a música de Paulinho da Viola, Simplesmente Maria, tema de uma telenovela. Ela me lembrava sempre que estava sozinho e sem mãe, cujo nome também era Maria. À hora dessa música sempre esperava algum golpe traiçoeiro da polícia que queria nos matar. Sem Maria que nos velasse. “Na cidade, é a vida cheia de surpresa, é a ida e a vinda, simplesmente, Maria, Maria, teu filho está sorrindo, faz dele a tua ida, teu consolo e teu destino, Maria…”. Nesse tempo, sempre compreendíamos o “faz dele a tua ida” como um “faz dele a tua ira”.

O nós aqui não é plural de modéstia. Foi um tempo difícil para mim e para todos os socialistas, inclusive você. Alguns dos nossos perderam a vida, outros enlouquceram, outros ficaram com sequelas até hoje.

Já na Princesa Isabel eu ouvia “Open the window”, com Ella Fitzgerald, e por ironia profunda o meu quarto não tinha janelas, era menos que uma concessão de uma água-furtada. Mas Ella Fitzgerald me salvava. Difícil é dizer quem me impressionava mais: se Proust, se Ella, se a vizinha. Mas a vizinha, Marco, foi na pensão da João de Barros. Eu não podia dizer a vocês, na época, mas agora digo: a vizinha de quarto, a viúva, é que era. Por solidariedade eu não poderia dizer isso então, porque todos estávamos no deserto.

– Você escreveu uma crônica para a filha da vizinha. Teve a aprovação da mãe, que queria ver a filha cercada de carinho por não viver com o pai – a filha. Acertou no gênero crônica ou criou uma tertúlia?

Que memória, rapaz. Ontem, caminhando, me lembrei que foi uma crônica para V., filha da viúva. Eu fazia uma aliteração de vês, lembro. “V. vê o vento”, algo assim. Não deve ter saído boa coisa. Mas perdi o texto. Eu não mostrei nem a V. nem à mãe dela. Penso que não acertei nem no gênero nem despertei ciúmes.

Você acompanhou bem parte desse processo. Naquele quarto estava um mimeógrafo debaixo da minha cama, “disfarçado” em um saco de papel. E panfletos subversivos. E o entrevistador, caçado pelo exército, escondido. A reunião de todas essas circunstâncias mortais não era coragem, você sabe. É porque era o jeito. Não tínhamos qualquer infra, a não ser dez cruzeiros mensais de contribuição dos simpatizantes.

– Mirtes, a loira de pernas queimadas, da UBES, durante algum tempo foi a nossa madona. Era bonita, e as queimaduras nas pernas cobriam-na de uma aura de heroísmo, visto que fora queimada pelo CCC. Você escreveu alguma elegia para ela?

A presença de Mirtes nos perseguiu mesmo quando ela fugiu do Recife. Aquelas coxas com marcas, aquela voz quente, alta, à beira da histeria, aquele voluntarismo feminino, aquela inteligência brava, eram quase uma fixação coletiva. Penso que alguns de nós imaginou-a aos gritos na cama, acordando toda a vizinhança. Mais flamante, fuck e eloqüente que as mulheres nos filmes eróticos da Suécia que não podíamos ver. Mas a imaginávamos com muito respeito, é claro. Isso quer apenas dizer: nós a imaginávamos e com ninguém comentávamos.

Não escrevi uma elegia endereçada a ela diretamente. Mas a pessoa de Mirtes entrou como um compósito na personagem Cíntia, de “Os corações futuristas”. Agora, uma curiosidade estranha, muito esquisita: Mirtes, depois de ler o romance, me perguntou ao telefone de onde eu havia retirado o nome Cíntia. Eu respondi, não sei, eu procurei um nome que coubesse na personagem e não achei outro. Resposta dela: “Cíntia nasceu na zona da mata pernambucana, em plena ditadura. Ela é a minha filha mais velha”.  É claro que eu não sabia disso, nem jamais soube sequer que Mirtes possuía filhos, ou filha. Somente vim ter notícia de Mirtes depois de publicado “Os corações futuristas”.

Há uma bruxaria na criação literária que é absolutamente inexplicável.

– Numa reunião que fizemos num sítio em Igarassu, você fez a segurança. Enquanto nos reuníamos sob uma árvore, você, num lugar alto, com boa visão, ficava sentado, escrevendo. Lembra-se do que escreveu? Ou melhor: da revolução que sonhávamos você fazia um episódio literário?

Putz, a tua memória é um flagra. Eu não lembro do que escrevia. Mas sobre aquela reunião escrevi depois o texto  Raquel, a viúva,

Na reconstrução da memória, aquele momento ficou assim:

“Estávamos em um encontro da União Brasileira de Estudantes Secundaristas… E para isso Raquel nos cedeu a sua granja, uma vez mais. Pois bem, não pensem por favor que sou humorista: eu era o segurança. Estava ali para cuidar da segurança de todo o grupo, onde sobressaía a pessoa ruiva, de coxas laceradas por ácido, cujo nome era Mirtes. Melhor, éramos dois seguranças, e não pensem de novo que sou humorista, os seguranças éramos eu e Spinelli. Amigo de infância, alto, magro e com habilidade para uma corrida de tartarugas, Spinelli era o parceiro ideal para sondar e perscrutar o horizonte, se policiais, facínoras e  exércitos com metralhadoras nos assaltassem. Que armas tínhamos? – Os olhos.  Que instrumentos de prospecção possuíamos? – Eu, um livro de Hemingway, Paris é uma festa (“Esse cara é revolucionário, lutou na Guerra Civil da Espanha”, eu dizia),  Spinelli, um volume de Lukács, cuja luz deveria iluminar a nossa vigilância. Posto de observação? – Duas redes, que balançavam e eram boas, na fresca das matas da tarde.

Súbito, um movimento ao longe. Um ser magro e pequeno como uma ave avança por entre as árvores. Eu sabia quem era, na época eu enxergava bem, eu sei na hora que se trata de Geraldo Sobreira, mais conhecido pelo honroso nome de Galo Cego. Ele assim se chamava porque era míope profundo, e descarnado como os galos magros e sem pêlo. Por isso, de brincadeira, anuncio a meu companheiro de segurança:

– Atenção. Um cego sobe o caminho.

Ao ouvir isso, o meu companheiro na segurança corre, à sua maneira corre, para anunciar ao grupo que discutia a luta contra a ditadura:

– Um cego! Cuidado! Um cego vem aí!”

– Os corações futuristas é um romance de fôlego. Na narrativa, a vivência de um tempo de aprendizado; no título, a gratidão a Nelson Ferreira. Você é um romancista telúrico?

(É impressionante como a história volta. Agora mesmo, meu filho ouve London, London, de 1970, sem saber que escrevo sobre um romance daqueles malditos anos.)

À primeira vista, o título do livro vem de um verso do frevo de Edgard Moraes, Valores do passado:

“Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes
Camponeses, Apôis Fum
e o Bloco Um Dia Só
Os Corações Futuristas…”

Mas quando escrevi o romance, o título original ia ser “Os anjos da noite”, para falar da luta subterrânea, que não podia aparecer à luz do dia. Enquanto o escrevia, visitei o ateliê de Zé do Carmo, e lá vi um quadro com os anjos que eu queria para a capa do livro. Como não tinha dinheiro para comprá-lo, fiquei sem o título. Então evoluí para o frevo de Edgard Moraes, porque “futurista” também remete ao tempo futuro de socialismo que os personagens sonhavam, e para isso e por isso entregaram suas vidas.

Imagino que sou telúrico não porque eu quero ser, uma busca. Narro o Recife, escrevo sobre o Recife porque sou filho de dona Maria e seu João,  nascido e criado no subúrbio de Água Fria, ao lado do mercado público. Como se não bastasse, todos os meus amigos são recifenses. Como fugir desse destino? Já tentei viver em outras cidades, Goiânia e São Paulo, mas não consegui. Havia sempre em todas as ruas uma falta, ora do cheiro de mar, do Capibaribe, ora do suco de graviola, de cajá,  de feijão com charque e jerimum, das coisas mais caras que fazem uma identidade. Uma vez, fiquei amigo de uma adolescente em São Paulo porque ela conhecia Ascenso Ferreira. “Pega o pirão, esmorecido!”. Quando vou ali em Carpina já sinto saudade do Recife.

– Entre Os corações… e Soledad no Recife há diferenças no estilo. No primeiro, há revoluteios, excessos; no segundo, há precisão… diria uma precisão poética, densa, tão densa que o comprometeu com o porvir. Concorda?

Esta é uma pergunta difícil. Neste domingo, às 13 e 30 da tarde, me levanto da cadeira para olhar a rua da janela. Dez minutos depois, volto e respondo.

Concordo, em parte. O interessante é que ambos os livros têm a mesma paisagem física, política e histórica. Mas são, de fato, diferentes. Um delas é a pretensão do autor. Em Os corações futuristas tentei escrever um romance de formação, do tempo em que os jovens, os melhores jovens que conhecemos na ditadura, eram socialistas. Que gente, que pessoas! A minha pretensão não foi pequena – tentei narrar, fazer uma gênese das idéias de esquerda, de generosidade, nas cabeças e vida desses jovens. Penso que não consegui. Mas ainda assim, em Os Corações Futuristas há capítulos de que não me envergonho, que releio sem sofrimento, de negação, sem me dizer eu não deveria ter escrito isso. Como aqui.

Em “Soledad no Recife”, no entanto, não há o objeto buscado de romance de formação. Mas nem por isso o livro é menos ambicioso. A densidade, a precisão,  vem da escolha, da economia de espaço e duração. Em qualquer obra, há um tempo dramático, onde não há cirurgia ou reparo de remédio de salvação. No tempo dramático há uma exigência foderosa que não perdoa nem dá segunda chance. Os personagens, nesse tempo, crescem, crescem e somem. E somam por isso. É claro, fracassei muitas vezes para construir esse livro, que Os corações futuristas já anunciava naquele clímax do ano de 1973, no amor por Cíntia.  Mas onde eu batia antes nas paredes, como um morcego nas cavernas à procura de saída, Soledad me deu. De fato, em “Soledad no Recife” sei e sinto que estou mais maduro e exigente com minhas próprias possibilidades de escritor. É verdade, ainda, que nele eu amei com todas as minhas forças essas heroína de 4 povos, de que falava Mário Benedetti. É como se fosse possível salvá-la do cabo Anselmo. É como se o amor que não pudemos falar, agora se falasse, livre. E o que é o amor se não a expressão mais alta de liberdade?

– Numa entrevista você se confessou apaixonado por Soledad. Foi empatia? Sentiu vontade de se insurgir contra as horas, por não poder retroceder no tempo, falar com Soledad e adverti-la do perigo iminente?
Diabo, respondi antes, mas continuo.

Sim, foi empatia, mas empatia ainda não diz. Foi uma declaração de amor a todas as mulheres que não pudemos amar. Foi uma declaração a todas que não pudemos salvar, de nós mesmos, da nossa incúria e da maldição daquele tempo da ditadura. É como se fosse uma salvação pela literatura. Quando pinguei o ponto final no livro, fiquei sem saber o que iria fazer a partir dali.

Amei e amo Soledad com todas as minhas forças. Por ela, pela literatura, passei a andar de avião, a enfrentar até mesmo as ameaças da extrema-direita, do cabo Anselmo, que continua ativo e com apoio até hoje.   Logo eu, que sou covarde, covardão em um nível insuportável. Todas as vezes em que viajo de avião, em que estou lá em cima, em zona de turbulência, por entre as nuvens, e nada tenho de mim além de mim, este ateu que sabe não terá outra vida se diz: “a que Soledad me leva…”.
– Numa crônica você confessou que viu um exemplar d’Os corações.. no sebo. A edição do livro foi bancada por você, autor. Sentiu-se um escritor esquecido?

Sim, claro. Um livro que a gente escreve é mais que orgânico. Na verdade, todos os livros que amamos ou temos em alta conta são inestimáveis, são um caso pessoal. Eu brigo às vezes com meus filhos quando eles jogam o meu dicionário de lado, como se fosse um objeto-livro apenas. Eu lhes digo: “Não é assim. Isso é um dicionário, entende?”. Ora, ninguém pega uma jóia e arremete a um canto. Um livro, que é parte de nós, é muito mais importante que uma jóia. É mais que um filho desprezado à calçada pública. Eu não vi o livro na calçada no antigo Trianon, na Avenida Guararapes. Mas um amigo viu e me disse: o canalha, pobre, vilão do camelô anunciava: “aqui só tem filé”. Entre os filés, a carne dura de Os corações futuristas. Eu fiquei tão magoado, que pedi ao amigo pra voltar lá e comprar o “filé”, porque eu tinha vergonha de eu mesmo ir comprá-lo. Vai que por azar alguém me visse no flagrante de amante rejeitado a recolher a sua amada?

Mas para a minha sorte ou azar o livro já havia sido vendido.

– Você compra livros de autores novos, atuais, ou permanece fiel aos clássicos, aos russos que tinham Tolstói como paraninfo, ou aos franceses da escola de Maupassant?

Marco Albertim, o nosso tempo é muito curto, você sabe. Hoje mais do que nunca, pelo tempo que nos resta. Por isso eu prefiro deixar a novidade correr mais, à espera de que outras opiniões, que respeito, recomendem os novos. É um risco, admito. Mas diante da alternativa de horas mortas, me consolo com o pensamento de que nada é mais moderno e recente que um clássico.

Os últimos novos que li foram os chamados poetas marginais do Recife. Senti um alumbramento.

– Sente enfado por Tchekov não ser mais uma novidade para você, por já ter passado o prazer da primeira leitura?

De modo algum. Tchekov sempre me surpreende,  mesmo quando releio um conto dele. É claro, a esta altura, na releitura temos um filtro que nota fraturas onde antes pensávamos existir só construção inteiriça. Mas ainda assim há textos impressionantes, moderníssimos, acabados de escrever agora, como aquele sobre o cocheiro que tem uma desgraça e ninguém o escuta. Ou momentos, trechos em contos, onde uma senhora abastada responde que não precisa publicar os livros que escreve, “porque somos ricos”. Ou aquele em que um velho professor diz à filha que lhe pede uma razão para viver: “eu não sei”. Não vou mais citar de memória nem lembrar A dama do cachorrinho nem o conto da Enfermaria, porque você, bom escritor e amante de Tchekov, conhece tanto ou mais que eu.

– Algum autor ou autores atuais o impressionam? Quem? Quais?

Alberto da Cunha Melo, poeta maior da língua portuguesa, que tem uma obra extraordinária e poemas eternos, que já nasceram eternos. E Nei Duclós, que para mim é o melhor cronista do Brasil hoje. Nei é um escritor de lirismo e contundência impressionantes. Ele vai além deste presente, sem dúvida. E Alberto da Cunha Melo, repito. O nosso último clássico.

– Se lhe encomendassem uma hipotética entrevista com Machado de Assis, qual pergunta não deveria faltar?
Esta é a pergunta mais difícil. Ela é uma ótima sugestão para um próximo texto, para uma possível entrevista que faria com Machado se ele fosse vivo, se ele estivesse vivo e bulindo. Procuraria esquecer que ele é o nosso maior escritor, procuraria não repetir uma “acusação” de que ele se omitiu frente à escravidão negra. Isso porque o  conto “O caso da vara” e a crítica de Astrojildo Pereira já responderam. Mas enquanto o texto sugerido por sua pergunta não vem, eu começaria a conversar com Machado pelas beiras, como dizemos no Nordeste. Começaria assim:

– Machado, fale por favor de José de Alencar.

Depois:

– E a esposa de José de Alencar, como você a vê?

E por último:

– O que o filho de José de Alencar é para você?

A razão de tais circunlóquios se prende ao fato de que diziam, na época, que Machado é que era o verdadeiro Escobar.  O filho de José de Alencar seria dele.

Encontro de amigos

O motivo inicial foi o câncer. Descobriram, de repente, que um deles poderia desaparecer, definitivamente desaparecer. Que todos desaparecem, mais cedo ou mais tarde, não tinham nenhuma dúvida. Todos, algum dia, todos todos todos sem dúvida um dia iriam, num futuro remoto, sumir. De morte morrida, matada ou suicídio. Todos. Mas uma coisa, que só a lógica humana explica, uma coisa é todos desaparecerem. Outra, bem distinta, era desaparecer um deles, um indivíduo conhecido, com quem viveram, conviveram, alguém íntimo, sim, outra bem distinta era desaparecer aquele indivíduo chato, aborrecido, mas que tinha, “ah, todos temos”, algo de humano e amoroso. E como se não bastasse, um alguém com a embaraçosa qualidade de ser “um dos nossos”.

– Saturnino pegou um câncer!

– Como foi isso?

Era a pergunta imediata, que vinha como resposta. Isso queria dizer: o que foi que ele fez de errado? Sim, alguma e algumas ele deveria ter feito. Está vendo? não se cuidou, é o pau que dá: não se cuidou, usou e abusou de extravagância, está aí, câncer. E isso queria também dizer, nós, que nos cuidamos, que seguimos dietas saudáveis, que praticamos exercícios físicos, que caminhamos, que fazemos amor dentro dos limites, que bebemos pouco, que comemos só o necessário, nós, a caminho da imortalidade, não, nós nos cuidamos.

– Como foi isso?

Vamos, queriam dizer, comprove-nos o quanto ele errou, o quanto não erramos nós, o quanto … não diziam, mas pela progressão da exigência de fatos explicadores poderiam dizer, o quanto ele é culpado do câncer que pegou.

– Ele mesmo não sabe. Havia deixado de beber, fazia cinco anos que não fumava, fazia caminhada, vivia de casa para o trabalho, do trabalho para casa,  estava com uma vida de santo. E câncer!…

– Ele estava sentindo alguma coisa?

Era a pergunta seguinte, porque isso também queria dizer, vamos, enumere urgente os sintomas que não temos.

– Nada, ele não sentia nada. Absolutamente nada. Entende? Nem uma só dorzinha, nem o mais leve mal-estar, nada.

Ah, e como um fel que se masca e mastiga, diziam ah, e isso queria dizer o quanto a doença era traiçoeira, o quanto ela avançava em silêncio, como um fila, pior, pior que um cão fila brasileiro, porque ao sentir as dores da mordida o indivíduo está no ponto final. Ah, então foram lembrando, aos poucos, sem reunião, sem que se comunicassem, como uma reflexão coletiva, como um pensamento que corre sem que se enuncie, o quanto outros males vinham se anunciando. Ah. Todos haviam ultrapassado os sessenta anos. Bolívar estava com regurgitação, e isso queria apenas dizer que não podia mais comer como antes, o que engolia voltava, contra a sua vontade. (Mas isso era melhor que o câncer!) Elísio estava com uma palpitações estranhas no peito, depois que recebera umas pontes de safena. Três, três pontes, mas benditas, porque isso ainda era melhor que um câncer. Isaltino fizera uma cirurgia remodeladora do estômago, da vesícula, extraíra um dos rins, essas coisas secundárias, que não se sabe por que temos dois, que felicidade, divorciado de alguns órgãos, mas paciência, isso, ainda assim, era melhor que um câncer. Vespúcio, com receitas infalíveis de vida saudável, alimentação milagrosa, chás de ervas de qualidades ainda não descobertas, exercícios e meditação budista, estava a caminho de perder o equilíbrio mental.   Demente, mas saudável, diziam-se. Será um atleta sênior, com um sorriso idiota, mas de qualquer modo isso ainda era muito melhor que um câncer.

Sim, mas ainda aqui, nesse levantamento em que tudo era o melhor dos mundos, porque ausente de câncer, e o mundo com tal ausência era o paraíso sem a oposição do satanás, ainda aqui, descobriram, se deixassem de ter como referência o mal maior, se voltassem os olhos para a vida de quando jovens, ah, se se comparassem aos que nada têm, ah. Era de amargar. Fel que não dava nem para mascar com aparência de jovens com chicletes. Ah. Porque então se deram conta, terrível novidade, que já haviam vivido mais que 70% dos seus melhores anos.

– Setenta? Olhe, você está sendo muito otimista, contestou Elísio. Olhe, para alguns de nós, estamos nos dez por cento finais.

Então decidiram fazer uma reunião de amigos. Um reencontro. A pretexto de uma solidariedade ao infeliz que sofrera o que não queriam , resolveram ter um reencontro, antes que fosse tarde. E aqui, somente aqui, nos dez por cento finais começa a nossa história. Porque aqui começam as novas dificuldades.

A começar pela estrela, o canceroso. Não queria falar com ninguém. Danem-se! “Deixem-me em paz”, espalhem aos quatro cantos, “esqueçam-me, eu quero ficar sozinho, eu quero morrer só, eu estou sentindo um fedor de hipocrisia, vão pra puta que os pariu”.

– Ele não está bem do juízo, dizia a sua esposa, ao telefone.

– Por quê? Ele está agressivo, quero dizer, ele está mais agressivo do que antes?

– Não, ele só quer ouvir João Gilberto.

– Ah, então o caso é sério, e desligavam.

Mas não desistiram de, aqui e ali, fazerem uma ligação. E ele, melhorou? Diga-lhe que todos desejamos vê-lo, revê-lo, que todos torcemos por ele, que ele é muito importante para nós… e demais frases e fórmulas de adulação, que por serem corteses, educadas, são enganosas, mas guardam, por isso mesmo,  o doce gosto de uma consolação.

– Como foi mesmo que ele disse? o paciente impaciente perguntava à esposa.

– Que você é importante para eles.

– Mas você disse antes que ele disse que eu era “muito, muito importante”.

– Sim, eles disseram assim: ele é muito importante para nós.

– Só isso?

E continuavam o assédio, por mensagens, por mails. Exageravam, no estímulo: “Levante a cabeça, o câncer é uma doença como qualquer outra”. Isso muito, muito o irritava. Uma doença qualquer?! Respondia, no mesmo tom: “Recomendo ao amigo essa doença qualquer. É uma bobagem, é como uma gripe, um sarampo”. E vinha outro, com estímulo semelhante: “Todos vamos morrer…”.  Que consolo. E vinha uma bondosa amiga: “Existem uns passes de energia, com os dedos, feitos com a proximidade das mãos, que conseguem uma cura revolucionária”. (E aqui, mesmo no esoterismo, não se perdia o jargão de antigos militantes da esquerda: passes de energia, esotéricos, mas  “revolucionários”.). E outro: “Melhore o humor, homem. Eu tenho uma tia, que com bom humor…”, o que seria algo, o paciente resmungava, algo como a cura do câncer pela risada. E se imaginava numa câmara de cócegas. Nela, um médico com máscara de cirurgião, como um boneco de marionetes, lhe anunciava: “A terapia das cócegas venceu a sua doença”.

Ao fim, no entanto, de 90 longos dias os amigos venceram.  Aconteceu de repente, naquele que desejava ficar sozinho, morrer sozinho, como se a morte não fosse em si uma imensa solidão, aconteceu de repente no homem de vidro uma saudade, uma vontade de beber, um desejo imenso de rever os amigos, de entrar com eles em um bar, num café do quadro de Van Gogh. De conversar  bobagem, de ver suas caras, como se fosse pela primeira vez. Está certo, como se fosse a última ou a penúltima vez. E pediu que marcassem o dia, o dia e a hora para o reencontro. Então os safados, surdina e quixotescamente, disseram-lhe, por mail, que as esposas não iriam. Que esse era um encontro tão-só e somente deles, sem mulheres, para melhor, não diziam, mas era isto, para melhor delas poderem falar. E quem sabe, talvez, possibilidades aos sessenta anos de idade abertas, se energias e fogo houvesse, talvez, quem sabe, a fuga para um bar que fosse um quadro de Toulouse-Lautrec. Com muito can-can. Ah…

As mulheres não aceitaram  a condição, estava escrito. Dizia uma:

– Então eu sou boa para ser enfermeira. Mas não para companheira…

Dizia outra:

– O que vai fazer um bando de homens juntos?

Ao que outra completava:

– Procurar mulher, é claro.

A isto respondiam com protestos os amigos, com sentidos e ofendidos protestos:

– Que é isto? Assim você nos ofende. Mulheres já temos. Vocês já nos preenchem, completamente… (Até o pescoço, até a fronte, acenava um safado, por trás.)

E quando pensavam que haviam vencido, numa tola esperança, porque desconheciam que ao fim e ao cabo as mulheres sempre vencem, quando pensavam que com tais declarações de amor conjugal haviam vencido, eis que vinha a carga, mais pesada:

– Um bando de homem junto, sem mulher… Então vão dar o cu! Quem vai comer o cu de quem? Era bom saber. Quem come quem?

– Minha querida, em nossa idade….

– Não perca a esperança. Velhice é desespero!

Então houve um grau supremo de apelação. Os amigos proferiram discursos comoventes, que argumentavam com um mundo só de homens, de recordações só masculinas, de necessidade imperiosa de se fazer um balanço sentimental desde a infância, de se contar fatos vexatórios que os homens não contam às mulheres, “vocês também possuem o seu mundo, entendem?”, discursos verdadeiros e mentirosos, demagógicos e grandiosos, de ternura e de raiva em iguais proporções. Inútil. Como diria mais tarde o sociólogo do grupo, a passar a mão no ventre esvaziado do rim esquerdo e de pedaços dispensáveis do estômago, como diria ele, a passar a mão pelas cicatrizes do abdômen, “o impasse estava configurado”. E completava:

– O amor é guerra, bicho. Se você se fizer de fraco, a mulher monta, monta e não desce. Então eu virei a mesa, e gritei: “Eu vou, eu vou de qualquer forma e jeito! Eu vou sozinho. E fim!”.

Mas se o amor é guerra, o vencedor não é o que grita mais alto. Pelo contrário. Todos tiveram a generosa permissão de ir sozinhos, “era uma questão de princípio, disso não abro mão”, proclamavam. Mas sob a condição, o que não se disseram nem exaltaram, de deixarem a informação exata do bar, do local, da hora, e com os telefones celulares acesos, dentro da área de cobertura. Sozinhos, mas… Liberdade condicional, sob controle remoto e vigiada. Então chegaram.

Estavam jovens, joviais e serelepes. E aqui a mão que escreve oscila entre o cômico e a comoção. A flor breve da juventude havia murchado. Todos estavam de cabelos grisalhos, com exceção de um, cujos cabelos enegrecidos deviam ser objeto de muita tinta e cuidados. Ativos, pesados, ágeis, mas só no olhar, na rapidez com que os olhos evitavam questões desconfortáveis.

– Você é feliz?

– Eu sou um homem prático.

E se olhavam, e se mediam, “será que estou tão velho quanto ele?”.

– Você está com a mesma cara! (Era o supremo elogio, porque o corpo não era mais o mesmo). É impressionante.

– Você acha? A gente se acostuma com o espelho e não nota. É preciso que outra pessoa diga. Você acha mesmo que estou com a mesma cara?

Feitas as “apresentações”, as retomadas dos contatos, voltaram então as brincadeiras, as ácidas e pesadas brincadeiras, ferinas, uma herança da adolescência.

– Como você faz para ficar assim  tão jovem?

– Eu? Alimentação, alimentação saudável e exercícios.

– Sei,  pão, queijo e café?

– Não, eu já notei que você não come frutas. Vai ver que foi por isso…

Ia dizer que “foi por isso que pegou um câncer”, mas suspendeu a frase. Ao que o atingido responde:

– Então comi errado nos meus últimos sessenta anos. Sim, como devo comer? Ensine-me, como devo comer?

A ironia não é percebida, porque o cultivador de “saúde é tudo, em primeiro e perimeiríssimo lugar saúde”, passa a enunciar uma receita:

– Olhe, pela manhã, um copo de suco de laranja, uma folha de couve, uma fatia de pão de centeio. Seis ovos de codorna, uma xícara de chá preto. E limão. Pode usar e abusar do limão, se quiser. Limão é muito bom para as artérias, até pra potência.

– Limão? – Todos se interessam na mesa .  – Limão?

– Sim, limão.

– Via oral, você quer dizer.

– Claro, por onde seria? E água, muita água. A receita da felicidade é a água.

– Água água?

– Sim, água, água. Bebam 8 copos de água por dia. Mas o ideal são dois litros de água. Limpa a pele, desintoxica, emagrece, lubrifica e dá tesão.

– Água mesmo, sem aditivo?

E entra-se então no capítulo de observações que se apresentam como gerais, como se dissessem respeito a outros.

– Há pessoas que na maturidade, no envelhecimento, não, porque todo velho é feio, mas há pessoas que na maturidade ficam melhores de aparência. Já notaram?

– Já, não é o teu caso.

– Mas você disse que a minha cara era a mesma.

– Então, isto mesmo: estás tão feio quanto antes.

Riem. E as vítimas rodam, substituem-se, como num jogo de bola, de “doidinho”, em que um indivíduo perde a bola para outro, e passa a tentar recuperá-la, que vai de um pé a outro, em roda.

– Você se lembra do dia em que o ladrão invadiu a sua casa?

– O ladrão jamais invadiu a minha casa.

– Então foi pior. Você pensava que o ladrão havia invadido. Você ficava a pular, de coluna a coluna da sala, com uma faca de mesa, sem ponta, a gritar para a sua filha: “o que é, porra?, o que é, porra?”. Aparentemente, era o chefe do lar a pôr ordem na histeria da filha, apavorada. Na verdade, eram anúncios para o ladrão, “vá embora, desgraçado, por favor vá embora, que estamos acordados”.

Riem.

– Mas o pior foi no outro dia. A filha lhe perguntou: “papai, por que o senhor ficou a pular, de uma coluna para outra?”. E a resposta: “era para o ladrão errar a pontaria do revólver”. Mas dizes bem: jamais houve ladrão em tua casa. Houve só o terror.

Então os casos, os “doidinhos” se sucedem. Até a exaustão, até o ponto em que os ridículos de cada um são mais do que conhecidos, e por isso perderam o interesse, ou então, são conhecidos, mas não se dizem, mesmo na bebedeira, porque ainda ferem, magoam, mesmo sendo cômicos. Ninguém diz, por exemplo, que a miséria humana, sexual, era tamanha na juventude que galinhas pretas, no quintal, eram adoradas pelas frestas do banheiro do quintal, em vigorosas masturbações. Ninguém diz tampouco que um deles recebeu um falso bilhete, onde uma enamorada teria marcado um encontro, e que ele ao comparecer ao local, perfumado e em sua melhor roupa, recebeu uma sonora vaia dos colegas. Isso não se diz. Nem tampouco a miséria material de outro, que para comer um prato de carne, deixou-se masturbar por um homossexual. Não, isso ninguém diz. Não se fala tampouco de casamentos que não deram certo, de filhos separados, fodidos, longe. Não se diz. Porque isso ficou além do ridículo. Porque há uma lâmina fina que separa o riso da dor. O limite talvez seja o ridículo que dói.

Então descobre-se que, por nada, os senhores sessentões ficaram sentimentais, estupidamente sentimentais, brutalmente sentimentais, que por nada choram, de repente choram, em meio a um relato aparentemente objetivo, trivial, perdem a voz, ficam com a voz embargada, e não conseguem avançar, param de falar. Escondem o rosto, vão ao banheiro, e voltam com a cara inchada e os olhos vermelhos. E então se dá um silêncio, e uma vontade imensa de gritar:

– O que é, porra?!

Mas não se grita, porque o grito seria um berro de menino sem mãe, órfão. Então sem aviso, começa-se a cantarolar, como se estivesse marcado, como se fosse uma música marcada no script do encontro, o Hino de Batutas de São José:

“Eu quero entrar na folia, meu bem

Você sabe lá o que é isso?

Batutas de São José, isto é parece que tem feitiço.

Batutas tem atrações que ninguém pode resistir

Um frevo desses bem faz demais a gente se distinguir.

Deixa o frevo rolar

Eu só quero saber

Se você vai ficar

Ai, meu bem, sem você

não há carnaval

Vamos cair no passo

E a vida gozar”

E repete-se o refrão, com os braços nos ombros, os velhos, os jovens amigos:

– Vamos cair no passo, e a vida gozar.

Então a voz começa a fraquejar. Então começa uma saída para o banheiro. Então começam a virar a cara, uns para os outros, a se ficarem de costas, a buscar um lenço.

– O primeiro a chorar é bicha. O primeiro a chorar é veado, certo?

– Certo.

E o banheiro começa a se encher de amigos. Até que um deles desaba, literalmente desaba e se põe num pranto alto. O choro contagia, todos os amigos se contaminam. Num fiozinho de voz, alguém diz:

– O nosso mundo está indo. O nosso mundo está se acabando.

Cai uma chuvinha fina, de fim de tarde, no bar que seria o Café de Van Gogh, se fosse de noite, em Arles, em setembro de 1888. Mas é um bar em Olinda, onde o mar bate, insensível àquele bando de velhos que acenam para um  mundo que não volta. Um celular toca. Toca, chama, em vão.  Silêncio, só murmúrio dos homens que choram. Todos estão fora da área de cobertura.

Assim me chamo, se lhe pareço

Vontade tenho de fazer uma afirmação geral, categórica: o nome da gente é destino. Mas quando reflito sobre isso, descubro que apenas cometi o título de um tango. Ou uma imensa bobagem. Por isso digo agora, mais restrito e conformado: o nome de algumas pessoas é destino. Como este meu, Urariano.

Mais de uma vez, em mais de uma oportunidade, esse meu nome exige ser repetido a quem o escuta pela primeira vez, e ainda assim, mais de uma vez, sofre equívocos. Para ser matemático, direi que a cada dez vezes que me apresento, recebo de volta nove traduções. No mínimo.

– Urano? Uriano? Uraniano? Ulariano?…

Algumas traduções não lembro, porque a memória, sábia, prefere não guardar. E não exagero. Se alguém põe dúvida, consulte o Google. Ali verá Urariano Mota, Uraniano Mota, Uriano Mota, todas versões, por incrível que pareça, referentes a este homem que agora lhes fala: um ser simples, camarada, generoso, simpático, pouco feio, se não exagero. Notem o agravante: o google remete a informações escritas, a textos escritos e assinados por mim, não ouvidos, mas, ainda assim, transformam – os outros, os que não aceitam este destino –, transformam a consoante r em n, comem ra, uma sílaba inteira, e outros crimes e variações, porque grande e imaginoso é o engenho humano.

Nome também é costume. Quando eu nasci, é claro, eu não sabia que me chamava assim. Depois, antes dos 5 anos, minha mãe dizia que ao ouvir Urariano, eu olhava para os lados, como se procurasse outro. Esquizofrenia tem história, dizem os analistas. Esquizofrenia tem nome, digo eu. O certo é que me acostumei a mim mesmo aos poucos. Primeiro, me disfarçando em Ura, Urá, Urari, Urare, Ulari, Ulare, Uriano, Uraniano, Orare, Orariano, conforme os outros me chamavam. Havia algum encanto em ser vários, no fluxo da intimidade e educação das pessoas. É certo, ninguém jamais me chamou de Unamuno. Mas de Tertuliano, sim, em homenagem a um jogador de futebol do São Paulo, de apelido Terto. Grande artilheiro.

Quando atingi a maturidade, quero dizer, quando atingi a idade que para outros é a maturidade, porque continuei a fazer desastre em cima de desastres, eu não mais me disfarçava no que me chamavam. Ouvia o personagem que me queriam dar, e me dizia, “Que estúpida, essa pessoa não vê que me chamo Urariano? Tão simples”. Era a vitória do costume. A essa altura eu era este nome em silêncio e contrariado. Depois, em acontecimentos mais próximos, cheguei a ouvir em uma sala de ultra-sonografia, de uma enfermeira:

– O seu nome é mesmo este? Senhor, eu não consigo. Urururi..  senhor, o seu nome é um trava-língua.

Simpática. De fato, com isso ela me fez esquecer da imagem no vídeo acima de mim.

Mas não há só desvantagem em ser registrado com este substantivo raro. Se não cometo algum crime, algum delito arbitrado no Código Penal, porque seria com mais facilidade preso, algemado e julgado, nem sempre nessa ordem, acredito existir alguma vantagem de compensação. Algo como um bônus que se concede aos animais ameaçados de extinção. Lembro que na Caixa Econômica, ao solicitar a retirada do meu Fundo Garantia, uma  funcionária me perguntou, para consulta em um banco de dados da Caixa:

– Nome?

– Urariano.

– Do quê?

– Minha filha, não tem do quê. Escreva só – e repeti, precavido, letra por letra – u-r-a-r-i-a-n-o.

E ela, triunfal:

– O senhor está enganado. Tem outro aqui.

E eu, sem ver as informações que apareciam na tela do seu computador:

– O engano é seu. O “outro” é Urariana. Minha irmã, nascida em 1955.

E era.

Por isso digo ao fim: podem me chamar do que desejarem, que não me importo. Assim sou, se lhes pareço. De Ura a Orare, passando por Uriano e Orariano, não há problema. Só não me chamem de Urariana. Essa minha irmã é uma senhora muito brava.

Ronald Golias, ou quando o riso era remédio

Se o comum da gente soubesse o gozo imenso que vem da arte, se a gente comum vivesse o prazer grande que é viver na arte, se a gente de todos nós despertasse para a libertação que vem da arte, se, quando e se e então pudéssemos renascer, viver mais uma vez com a consciência da vida anterior, ah, então saberíamos todos exaltar e ver e ser a felicidade que vem do artista.

Essas palavras nos vêm porque as idéias nos atropelam. Quando brotou o parágrafo acima, queríamos apenas dizer em uma só frase e golpe: adeus a Ronald Golias que éramos e somos ignorantes do valor que ele possuía no mundo que se vai com o artista. E mais, e más e mas e porém: por que a burrice humana teima em somente ver o gênio póstumo? por que não vemos  o  gênio em carne e osso que se move diante dos nossos olhos? Deveríamos, em nome da coerência, desprezá-lo igualmente quando parte sem volta. Deveríamos, até em nome da justiça, adotar o princípio de que se um homem não foi valorizado em vida, assim continuar pelos séculos póstumos.

Em compensação, acompanhem a crueldade, como não temos uma segunda existência, recebemos todos o dom e a graça de lamentar o que perdemos, como se o chorar o bem perdido fosse a própria segunda oportunidade. Por isto, permitam essa breve inscrição na lápide que confirma a estupidez humana, permitam, pois, que se inscreva e se escreva esta verdade póstuma: Ronald Golias foi o maior ator cômico do Brasil. Dizer assim é fácil, parece mais frase à beira do túmulo, daqueles discursos que arrancam mais lágrimas pela hipocrisia que pelo morto. Digamos de outra maneira: se o ator cômico é uma categoria mais alta que o ator dramático, digamos então esta conseqüência singela: Ronald Golias foi o maior ator do Brasil. Mas dizer isto ainda é muito fácil, até parece purgação, remorso, arrependimento, e outras compensações com que Deus nos presenteou porque nos proibiu a imortalidade.

A prova, se prova há em terreno inseguro, a prova documental do que afirmamos seria o programa A Família Trapo, de 1967 a 1971. Para desgraça nossa, no entanto, toda a série, com exceção de raros minutos, sumiu no fogo e no incêndio da TV Record. Poderíamos tentar ainda assim ligar algumas pistas documentais, alguns indícios do que afirmamos, porque ele continuou a representar na televisão, no cinema até este 2005. Melhor não. Melhor evitar esse caminho porque seria injusto para com a verve desse criador lembrá-lo nas últimas representações. O medíocre desses últimos papéis o coração da gente esquece. Melhor vê-lo então sem documento físico, com a força do que ficou em nossa memória.

A Família Trapo era um programa, uma família classe média, que sem Ronald Golias no papel de Bronco seria a coisa mais tediosa que pode haver num aglomerado que se chama família.  A sinopse do programa informa: “As confusões aprontadas pelo malandro Carlos Bronco Dinossauro, cunhado de Pepino Trapo, o patriarca da família. Além de infernizar o cunhado, Bronco infernizava também a vida dos sobrinhos, da irmã e do insólito mordomo Gordon, vivido por Jô Soares”. Este é o resumo. É menos que a sombra de um fantasma. Imaginem agora um indivíduo que não pára em cena, que, ao ouvir falas pacientes é impaciente, pisca sempre os olhos, que torce a boca, que se requebra, dá voltas no palco do teatro. Imaginaram? Imaginaram pouco. Imaginem um homem que modula a voz, que fala num acento caipira do interior de São Paulo, que distorce e cria palavras, corta sílabas, para melhor enfatizar a ignorância do personagem, que não recua diante de nada, de nada, nem diante do mais elementar ato de excreção dos intestinos, ainda que sem perder a elegância, se assim podemos nos referir a um indivíduo que se vestia à semelhança de Cantinflas. Imaginaram? Imaginem agora um ator que em plena representação, em plena fala, sai do palco, some, com as mãos sobre o ventre e avisa: “Vou ali”. E deixa o pobre do coadjuvante sozinho diante da platéia, de um coadjuvante que era também um grande ator, e que por isso comentava com as mãos no nariz, para todo o público: “Ninguém suporta a peste”. Imaginem mais e acompanhem um pouco.

Um dos núcleos de comicidade, no roteiro, era o desprezo que Bronco dava ao trabalho, da fuga que mantinha a qualquer tentativa de fazê-lo ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Isto no roteiro. Mas era de uma imprevisão simples o que Ronald Golias fazia diante disso. Por exemplo, quando estava absolutamente cercado, quando não possuía argumentos bons, convincentes, para deixar de viver à custa da beleza da irmã, ele, súbito, tinha febre! Dizia, a seu modo, com estremecimentos, e a levantar o paletó sujo até o pescoço: “Que frio, que frio, que friiiio”. E então, para que não morresse o homem, que caía e abria os olhos para o público, a família aceitava que o maldito ocioso voltasse a seu normal. Que era: viver na eterna dependência, com ares de alta classe média ao receber visitantes na casa, e com uma hipersensibilidade, com melindres finos a qualquer leve insinuação de que era um vadio.

Claro, nem por isso o conflito primário de que vivia sob o dinheiro do cunhado era resolvido. E por isso brigavam, o italiano que enriquecera no Brasil e o cunhado, que era uma despesa não prevista no casamento do italiano. Brigavam, feio. Então começavam, num crescendo, os insultos. – Pernachia. Parasita!, gritava-lhe o italiano. Ao que voltava Ronald Golias, contra o passado heróico do bom italiano: – Mussolini! Mussulini!, e, insatisfeito, punha-se a cantar em falsete um hino fascista. Então Pepino Trapo se acercava mais do ator à beira da histeria, ambos. E então vinha o que na memória é o ponto alto da imprevisibilidade do artista. O clímax, um orgasmo de apoteose: Ronald Golias caía num ataque apoplético, a debater-se, a babar-se, rolando em convulsões. Ele batia com a cabeça no palco e danava-se a bater no peito com os punhos, como se fosse um macaco no chão. Acredito até hoje que os atores em cena deviam se perguntar, diante da epilepsia, “homem,  será que desta vez é verdade?”.

Aliás, “liás”, como dizia o personagem a cruzar as pernas, mui importante e educadamente, o seu improviso, o que no teatro chamam de “caco”, é um capítulo que torna pálida qualquer tese. Era ver, era sentir, era gozar o elementar da criação. Num tosca frase, deveria ser dito que os seus improvisos eram mais que uma co-autoria, como de resto é todo ato de interpretar. Os seus improvisos eram a própria criação. Isto quer dizer, por um lado, que ele tornava cômico o que no roteiro apenas era risível. Por outro, que ele superava a dificuldade com uma descoberta, com um ser novo. Ora, em nenhum roteiro seria previsto que o ator tivesse disenteria em cena. Em nenhum seria possível prever o embaraço do artista diante do galã famoso, que a cinco centímetros do rosto e da voz do astro, explodisse: – Pára, pára com isso, desse jeito nem eu resisto! Em nenhum deles seria possível o que ele fez com Pelé.  O roteiro, é certo, dispunha que ele ignorasse o nome e o talento do jogador. Mas ele faz um achado, vejam: ele se curva, não para saudar o rei, mas para bater com a cabeça no chão diante da ignorância do Rei. Ele se dobra, homem sábio que é da arte de jogar, porque não suporta mais a estupidez de Pelé diante do futebol.  O idiota que faz papel de gênio, o ignorante que se julga sábio, que não agüenta a grande ignorância em torno de si, e por isto se curva, “irônico”, isto é simplesmente irresistível.

Há uma tendência na crítica, aquela que se julga mui genial e culta, a realizar sem que disso saiba o papel do Bronco de Ronald Golias, há uma corrente crítica que vê em Golias um tipo de humor ingênuo. Um quase primitivo. E isto, amigos, é apenas mais uma vitória da arte de representar, a própria reencarnação de que a melhor arte esconde a sua arte. Idiotas, sim, eram os seus últimos papéis. Mas ainda aqui, ainda assim, o velho artista, aos 76 anos não se curvava, não se nivelava à precariedade burra, apesar dos vincos no rosto e da perda ágil dos movimentos. Caía, mas como dizê-lo?, caía no talento, mas sem um ataque apoplético. E que homem é o mesmo quando as energias enfraquecem, quando a luz do seu gênio entra em fade-out?  Agora tentem, respeitáveis críticos, tentem ao menos em sonho algo como o Bronco em 1967, 1968, da Família Trapo. Tentem e verão de que natureza é feito esse humor ingênuo. Um gênio em papel de idiota, um dono do palco, dos atos, do improviso, um mestre da representação. Sem trombetas, a não ser as que mandava soar o idiota Bronco, daquelas que soam nas horas mais impróprias durante uma conversação, de péssimo e imprevisível odor.

A lembrança que nos vem de Golias, nessa hora em que parte, no dia dos santos Cosme e Damião, mistura-se com a nossa própria vida quando se anunciava 1968. Todos adolescentes amigos também vivíamos uma comédia, que para nós à época mais se assemelhava a um drama. Talvez por isso todos fôssemos possuídos pelo desejo imenso de rir, de sorrir. Uma vez por semana, todos os sábados, uma hora de felicidade.

De roubos, furtos e moral

Eu também já fui ladrão, confesso.

Eu e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais cedo, e terminávamos, melhor dizendo, por volta das 20 horas fazíamos um breve intervalo para o outro dia. Isso, é claro, quando não demonstrávamos maiores provas de amor ao ofício estendendo a jornada até as 22 horas. Ainda assim, não chegávamos a ganhar o pão com o suor do próprio rosto, porque: a) o que ganhávamos não dava para o pão acompanhado de qualquer proteína; b) não suávamos, porque o trabalho era sob o frescor do ar-condicionado. Mas alguma coisa ganhávamos, como veremos.

Nada direi sobre Hermann, um descendente de empresário sueco, um descendente bastardo já se vê, um sujeito deserdado, que estendia olhos mui nobres para o que os seus dedos finos não alcançavam. A saber, tudo: cervejas, cigarros, e, luxo dos luxos, almoço, janta e ceia. Nada direi. Importa saber que em uma fatídica noite Hermann estendeu sua cobiça para uma direção. Acompanhei-o, não bem por solidariedade, mas por experiência. Os seus olhos sempre se dirigiam para o que eu também ambicionava.  E vejo e vi então o grupo dos quatro gerentes que entrava em nossa última sala, próxima à cozinha (mirem como o diabo nos queria). Ali se encontrava o refrigerador, que de ordinário abrigava somente água, nada mais que água.  De sede, portanto, não morreríamos.

Entram os gerentes. À frente, como sempre, o gerente geral, obeso, bon vivant, cheio de idéias positivas sobre o crescimento material das pessoas. Ele era a tese, antítese, síntese e  realização dos princípios positivos.. Atrás, o vice-gerente, fiel discípulo. E depois, em ordem cadenciada de passos e postos, os outros em escala descendente de hierarquia e salários. Como apareciam todos de ternos, com o paletó aberto a mostrar seus ventres redondos, dir-se-ia uma fila de pingüins a caminhar para a neve – o refrigerador ao lado de nós. Mas isto, para aquele instante, não é novo.

O novo, o que os olhos de Hermann identificam com precisão e necessidade, são as caixas que eles portam, objetos oblongos, cujo conteúdo pelo cheiro e forma adivinhamos. Olhamos, e baixamos a vista: são caixas de sorvete, preciosos sorvetes de frutas tropicais, da Sorvane, que é uma cliente do banco. Um quilo de sabor infernal em cada uma. Cajá, mangaba, caju… Se um gênio nos perguntasse àquela hora das 21 horas, em 1981:

– Homem, o que desejas? Vida eterna, tesouro, ser amado pela maja de Goya….

Nós responderíamos, sem dúvida e sem vacilar:

– Primeiro o sorvete, gênio. E depois conversamos com mais calma e firmeza.

Um dos gerentes, o mais afoito e arrogante, passa de volta e assim nos saúda, como sempre nos saudava:

– Meninos… – Com esse tratamento ele apenas nos põe no lugar de subalternos, ainda que sejamos mais velhos que ele. – Meninos…

E passa, com o seu largo traseiro. Deixa atrás de si, além da cauda que parece arrastar, um cheiro de cu, álcool e perfume estragado pelo álcool da noite e banquetes. Saem. Batem a porta. O banco mergulha em silêncio, aquele mesmo silêncio que antecede a madrugada e permite a maior liberdade aos ratos. Eu e Hermann nem nos olhamos mais. Enquanto somamos valores de cheques, enquanto amarramos papéis em lotes, não nos sai da cabeça a tentação dos frutos proibidos. Então eu me levanto e vou olhar, somente olhar e mais nada, a cara, somente ver a cara dos sorvetes. E pelo nome na tampa, percebo que um deles é de cajá. Ora, ver é permitido. Ver não dói. Somente ver, Senhor. Ora. Com artes de arrombador de cofres eu retiro a tampa da caixa. E vejo a cor amarela.

Ver dói. Dá um sabor, um aroma, um travo de recordação na língua. O dicionário Aurélio informa que o cajá é fruto da cajazeira, que por sua vez é árvore de produzir uma drupa elipsóide amarela, aromática, muito sucosa e fortemente azeda, própria para refrescos e sorvetes. O que o dicionário não ensina é que o sorvete de cajá na altura de 9 da noite, em dois bancários com fome, é qualquer coisa mais que irresistível. E com aquela raiva que nos possuía, com aquele ódio de classe acumulado pelo “meninos”, eu lhes digo, o cajá tem uma força maior que a do sexo para marujos perdidos. E por isso, eu, o almirante sem esquadra, comando uma rápido assalto e abordagem.

– Hermann –  eu oriento o deserdado – Hermann, se a gente fizer assim, eles não vão notar.

E com isso dou o exemplo. Com uma colher faço raspagens, retiro lâminas da superfície do cajá, rebaixo o tamanho delicadamente (tão delicado quanto um homem com fome assalta uma presa), de forma e de formas a deixar o volume do sorvete bem distribuído, em uma mesma altura.

Olhem, mirem e escutem, eu não quero incriminar outra pessoa. Mas eu acredito até hoje que Hermann foi o culpado. Ele acabou com o sorvete! Ele, sem seguir a minha orientação, fodeu todo o cajá! O animal esvaziou todo o conteúdo suculento próprio para refrescos e sorvetes. Disse-me ele depois que não poderia seguir as minhas instruções de calma, “vá com calma, Hermann, atenção, cuidado”, enquanto aquela drupa amarela, melhor que as majas de Goya, era devorada em profundas horizontais por este orientador. O certo é que restou a caixa vazia, que tampamos atenciosos, e com recomendações de estima fizemos retornar ao mesmo lugar e temperatura. Amada, dorme em paz, queríamos dizer.

Chega o outro dia. Mais uma vez entra a fila dos pingüins, em ordem.

– Buon giorno – saúda-nos o gerente geral. Os demais pingüins tentam repetir o italiano do chefe: – Bom giorno, bom giorno…

Eles se dirigem, como um dia antes, à neve do refrigerador. Eu e Hermann de cabeças baixas, extremamente concentrados em nossas somas e subtrações de valores. Temos que bater o balanço, ora, por favor, não nos distraiam do nosso ofício. Em torno de nós, melhor dizendo, em nossas costas ouvimos silêncio, aquele silêncio do cinema dos filmes western, o mesmo silêncio que vem antes do ataque dos índios. Súbito, um grito. É agora. Eu não posso nem olhar Hermann. Ele também não me vê. Mergulhamos a cara nos relatórios de conta corrente.

– Quem foi que roubou o meu sorvete? Quem foi?!

Se no mundo explodisse a bomba fundamental, não a ouviríamos. O ventre que entrevemos, por baixo dos olhos, pelo cheiro com que arrasta a cauda, adivinhamos. É do yuppie, que nos trata por meninos. O cajá era dele. Os inimigos se percebem sem palavras, porque ele se dirige a mim, com toda assistência dos pingüins em torno. Juro por Deus que tive então a minha última hora de coragem. Fitei-o com a cara mais cínica e despudorada e repleta de surpresa que um ator pode ter. O meu ser, a minha expressão, pelo menos eu me esforcei para isso, quis dizer:

– A quê o jovem se refere? Na verdade, eu não sei nem se existe no mundo algo semelhante a cajá.

As evidências nos apontavam como autores do crime. Eu e Hermann éramos os últimos a sair. Talvez também os de pior condição social e financeira. Em vez do cherchez la femme, e a fêmea era aquela maravilhosa polpa amarela, os sinais anunciavam: busquem os fodidos. E por isso o pingüim mais jovem nos recrimina, olhando ora para mim, ora para Hermann:

– Quem rouba sorvete é ladrão. Quem rouba sorvete, assalta um banco!

Isso foi o mais duro de ouvir. Se houvesse uma catilinária de classe a nosso favor, e se essa catilinária não nos empurrasse para o olho da rua…. baixamos a cabeça e engolimos.

Muitos anos depois, um belo dia soubemos: aquele gerente, aquele pingüim mais jovem se transformou em um criminoso procurado pela polícia federal, porque tomou conta, com excessivo zelo, de valores de clientes. Ou seja, aplicações em papéis, em bolsa de valores, que investidores lhe confiavam, deixaram de ser feitas nos dias e períodos solicitados. Pior: assim como a fome sobre a caixa do sorvete de cajá, que começou pela superfície e foi até o fundo, o nosso Catão havia comido toda a aplicação, e por isso fugiu para lugares menos perigosos.

Não sei se existe moral nessa breve história, mas se houver, passa por esta recomendação: se não for seu, não comece jamais a comer um sorvete de cajá. É irresistível.

Final de Copa do Mundo

Nelson Rodrigues já havia escrito, com todo seu gênio e cinismo, que a seleção brasileira de futebol era “a pátria em calções e chuteiras, a dar rútilas botinadas, em todas as direções, como um centauro truculento”. Que cínico, nos dizíamos, que cínico e safado, praguejávamos, porque naquele ano de 1970 a distância e o distanciamento não eram possíveis. Estávamos em uma ditadura militar, o ditador Médici utilizava a seleção como uma arma da Pátria contra o comunismo, e dizia aos maus brasileiros, aos subversivos, aos terroristas, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Nas fotos, os olhos claros do ditador, os vincos a descer na sua carranca possuíam a expressão de um vampiro.

Em 21 de junho de 1970, portanto, o clima não era bom, não podia, não deveria ser bom. Para os que andavam de mal com a ditadura, o tempo não estava bom. Apesar de cair em um domingo.

Meus amigos Mário Sapo, Spinelli e Anael bem que procuraram ocupação mais digna que ver a final da Copa do Mundo. Missão, como o título de um seriado da televisão da época, missão impossível. Ainda que fossem a um convento, entre as orações e cânticos dos frades santos, não conseguiriam. Havia um clima, essa expressão que viemos a conhecer depois. Mas era mais que “um clima”. Havia uma final de copa do mundo escrita nas nuvens, no céu, no mar. O selecionado brasileiro de futebol estava em todas as coisas. Nos jornais, na televisão, no cinema, nas escolas, nas ruas, no amor, nas conversas. Aliás, outro assunto não era possível, a partir de todo e qualquer tema. – E a seleção?, perguntava-se a troco de nada, e o rumo na conversa mudava.

Para complicar, havia um complicador, se nos permitem a complicação. Havia um complicador para o alheamento dos amigos àquela imensa alienação, àquela estupidez da alienação dos povos, àquele ópio dos ignorantes: a Copa do Mundo de 1970, assim mesmo, em maiúsculas, era a primeira Copa transmitida pela televisão. Ao vivo, como diziam. Do México, com imagens transportadas de um satélite. O que bem poderia ser dito por João Saldanha: “Meus amigos, toda realidade exterior ao futebol hoje está suspensa”.

Missão impossível para Mário, Spinelli, Anael, e todos militantes socialistas do Brasil. Em algum lugar deve haver uma lição da dialética que ensina: se as missões se tornam impossíveis, o melhor é conviver com a sua impossibilidade. Mas não sabíamos disso então. Esta página ainda nos era arrancada, ou devia estar escrita em sânscrito intraduzível. Ninguém nos disse. Mário, o mais velho de nós, teve um primeiro recuo tático.

– Olha, a massa está sendo manipulada. A ditadura está usando esse jogo para sair fortalecida…. – Primeira parte do discurso, indispensável, para não ser execrado. – …. Agora.. – Segunda e problemática parte, a mais importante. –  … Agora, a gente não pode ser contra a massa. A gente não pode ser contra o povo. Se o povo está assistindo…

– Populismo, caralho. Se o povo está assistindo, nós também vamos assistir? É isso?! – cortava Spinelli. – A vanguarda repete a massa, é isso?

– Sim, Lênin – voltava Mário. – Sim, Lênin…

Ao que o magro Anael, sabedor por intuição e experiência aonde levavam os argumentos de Mário (libação, álcool, que ninguém é de ferro), intervinha, como um votante, porque democrático era o processo:

– Eu estou com Mário. O povo é quem sabe o rumo. – E adaptava um refrão: – Ruim com o povo, pior sem ele.

– Sim, mas  – Sentia-se encurralado Spineli. – Sim, mas…

Mas antes que entrassem em discussão as categorias do conhecimento, o que é o povo, o que é a massa, o que é a vanguarda, e o tempo histórico, e sua urgência e emergência, Mário, o mais velho, propunha:

– Vamos discutir isso no Savoy.

O Bar Savoy era uma festa, sempre. Foi para ele que Carlos Pena escreveu “são trinta copos de chope / são trinta homens sentados / trezentos desejos presos / trinta mil sonhos frustrados”. Foi lá que a Jomard Muniz de Brito ocorreu que “o Recife é um chope”. Foi para ele que os personagens de Os Corações Futuristas estenderam os olhos mendigos de cerveja, porque ali se podia beber a felicidade em mesinhas de ferro. O Savoy era uma festa.

Os nossos amigos, os nossos, naquelas circunstâncias, heróis, sentaram-se a um canto, um pouco à margem do aglomerado, que rodeava um dos televisores no Savoy. Diabo de copa do mundo, vieram ali para conversar os próximos rumos do movimento e do Brasil. De costas para a alienação. Acintosamente alienados da alienação. No entanto, Mário, sempre o mais precavido dentre nós, sentou-se de frente para a televisão. Porque ver, o simples ver, não atrapalha, ou não devia atrapalhar toda e qualquer desenvolvimento da argumentação, da mais reles matéria à metafísica.

– A gente aqui pode falar à vontade. Ninguém nos escuta –  Spinelli dizia. E por isso retomava: – A Revista da Civilização é a melhor frente de esquerda hoje no Brasil. Vocês viram a deste mês?

– Eu prefiro a fonte. Eu prefiro o original – Anael argumentava, um tanto incômodo e angustiado, pelo rumor às costas.

– É, é…..  Mário ia respondendo, enquanto movia os olhos, pensativo, mui pensativo, a todo e qualquer encaminhamento da dialética que ouvisse.

– Não, rapaz, em relação a muita coisa, Nelson Werneck Sodré não é reformista, entende?

–  Claro… É… – Mário ia respondendo.

Havia uma tensão no ar, uma carga explosiva que se ia acumulando, sem alarde. Um movimento surdo passando, que ninguém percebia, ainda que todos dele participassem. Um coletivo de gozo ou desespero a irromper. Então de repente, como se por força de um comum desejo, no décimo e oitavo minuto da exposição do destino dos povos, o povo mais próximo, no Savoy, explode:

– Gooool! Gol, gol, gol! Goool!

Mário, por estar mais integrado à massa, por esse motivo também se levantou:

– Gool! É gol, é gol…

Spinelli e Anael, como bons subversivos, escolados (“a primeira tarefa do revolucionário é não se denunciar”), por isso também se ergueram:

– Gol! Foi gol, cara…. De quem, de quem?

E Mário, o flexível, o flexível atento, anunciou:

– De Pelé. De Pelé, porra!

– Ah, tinha que ser – reconheceu o mais sábio.

Os garçons do Savoy, mais atentos que todos os atentos, comemoravam, e em igual movimento de comemoração enchiam as mesas de cervejas, e entre as mesas a dos nosso heróis. Que se achavam, na altura dos 20 minutos de jogo, os próprios terroristas disfarçados. Fantasiados de povo, a beber no Savoy, em jogo de copa do mundo. Mas não demoraram muito no disfarce, ainda que isto lhes parecesse uma eternidade. A máscara caiu aos 38, ainda no primeiro tempo da fantasia e da defesa.

– gol…..foi gol… Porra, que merda! Presta atenção, seu porra! Manda essa bola pra tua mãe… – ouviu-se, foi-se ouvindo, aqui e ali, às costas, à frente, de lado, do teto e das paredes, do chão e da Avenida Guararapes.

– gol, foi gol….

Um carrasco de nome Boninsegna havia driblado o nosso goleiro, o verdadeiro herói lá na televisão, e sem piscar enfiou o empate da seleção da Itália. Mário, o tático, assumiu então as suas características de sapo, porque inflou as bochechas e mal olhava agora para a pequena tela, como se estivesse na iminência de coaxar. Anael lhe seguia, com movimentos na bochecha, à sua imagem e semelhança. Na verdade, à direita, à esquerda, acima e abaixo da ditadura, todos no Savoy ficaram meio sapo, de papo inchado, carrancudos, raivosos. Spineli, ao ver a geografia humana ao redor, susteve a frase na garganta, “futebol é alienação”, e achou mais prudente, e natural, ficar em terra de sapo de cócoras com ele. Em silêncio, todos danaram-se a beber, que os garçons de Savoy serviam bem na alegria e na desgraça. Mercenários, tiravam partido da pátria em qualquer circunstância.

Acabado o primeiro tempo, quase todos no Savoy tiveram a mesma idéia, porque se aglomeram no banheiro. Ambiente para lá de carregado, elétrico. Spinelli, magro e desengonçado, entra no círculo ácido do mijo. E até hoje ele não sabe por que razão, e até hoje ele oculta dos seus o momento raro do perigo que passou, e que soubemos depois do abismo. Na volta do banheiro, em um corredor estreito e infernal, ele esbarra em um popular irado, nervoso e tenso. Esbarrou por acaso, por maldito azar, mas o popular, essa categoria ótima para uma tese, mas bem arisco ao vivo, assim não entendeu.

– Tá cego ? – E empurrou o nosso amigo contra a parede.

Spinelli, alto para os padrões do Recife, lutador de judô em aulas clandestinas, porque assim faria a segurança nas passeatas, reagiu ao empurrão. Ou seja, empurrou o popular de volta, como quem cumprimenta e vai embora. (Não era sua intenção saber o valor prático das aulas orientais que recebera, naquela hora e em outras.) Que faz, que fez? O popular lhe responde com um mais vigoroso empurrão. Spinelli volta, como se a parede do estreito corredor fosse um elástico, que lhe desse um exemplo da terceira lei de Newton. E volta com o impulso da sua pequena massa inercial, somente para dar um instante breve de resposta ao segundo empurrão. Nisto, e como prova insofismável de que a toda desgraça corresponde outra maior, surge um indivíduo tão alto quanto o nosso amigo, porém mais volumoso em carnes, vontade de brigar e músculos. Que vinha a ser o amigo do popular irritado. E lhe diz, a Spinelli:

– Ei, magro, é briga, é?

Spinelli olhou de cima a baixo, e da direita para a esquerda o homem-guarda-roupa. Sabemos nós, a distância, que os manuais de filosofia ensinam que só se deve correr quando houver possibilidades de espaço e circunstância. Mas o que não se encontra em nenhum manual, nem nos melhores livros, foi a resposta de gênio que achou o nosso amigo, naquela hora de angústia, agonia, desespero e aflição. Acreditem e creiam, porque em pleno intervalo do jogo final da copa do mundo, o nosso amigo gritou, com os braços erguidos e levantados:

– Viva o Brasil!

O amigo do popular, espantado com aquele golpe baixo, de gênio, reagiu como bom patriota. Abraçou Spinelli como se abraça um companheiro de torcida.

– Viva! Viva o Brasil!

Com as costas ainda a estalar nos ossos, o nosso amigo voltou ao abrigo de nossa mesa. E todos assistimos ao final de Brasil e Itália. De frente para a pequena tela, para melhor integração. E comemoramos, e pulamos, e gritamos gol. Sem remorso e sem dor na consciência. E saímos de lá abraçados e bêbados rumo ao Zumbi, onde morava Mário Sapo. Felizes a cantar. Afinal, estávamos todos metidos em nossa face legal. A de patriotas, no país de calções e chuteiras.

Esse povo pobre

“Por que não tiram essa gente daqui?”, perguntava a amada de Baudelaire.

Foi na manhã desse domingo que passou. Todo o bairro havia passado por um rigoroso racionamento dágua. Vale dizer, em bom português de consumidor, nas torneiras, até a véspera, não havia um só pingo dágua. No domingo, ao descobrir às sete da manhã que a torneira voltara a jorrar, cumprimentei o vizinho.

–         Bom dia. A água voltou!

E ele, aguando as flores em seu jardim:

–         Bom dia. Finalmente, não é?

–         Finalmente … Acredito que essa falta dágua tende a piorar.

–         É o desperdício, não é? Jogam água fora sem nenhuma medida.

–         Verdade. A gente usa a água como se fosse um bem inesgotável.

–         É esse povo pobre. Fazem ligação clandestina e mandam ver. Não pagam, não é? Jogam fora. Isso é com tudo, é com água, é com alimento, jogam no lixo. Esse povo pobre! …

O vizinho é um homem classe média, um senhor aposentado, com uma pensão digna, tudo indica. Ao se referir a “esse povo pobre”, ele me toma evidentemente como um semelhante de classe média, e os indícios residem na semelhança de nossas casas, na semelhança e largueza de nossos jardins, cujas flores, papoulas se irmanam nos muros, na fraternidade dos carros em nossas garagens. Essa gente pobre! … Engasgado, calo-me e entro. O embaraço não vem da falsidade das semelhanças exteriores, que nem precisam de comprovação de renda. O embaraço que sinto não é nem mesmo o absurdo que atribui o desperdício de consumo a quem possui menos renda. Nem mesmo vem de uma solidariedade a esse povo pobre, tão dessemelhante de nós mesmos, esse povo pobre por quem nos curvamos como uma prova de amor cristão, ou de uma generosidade humanista. Não.

“Por que não tiram essa gente daqui?”, perguntava a amada de Baudelaire. A mágoa, o embaraço que me ficou não foi como em Os Olhos dos Pobres, quando o poeta francês se dizia enternecido, em razão do vinho e da música, que o deixavam envergonhado da boa mesa e das garrafas, maiores que a sua sede, enquanto lá fora, na calçada do café, artistas ambulantes tremiam com o frio. “Que gente insuportável!”, exclamava-lhe a sua namorada. “Você não poderia pedir ao dono do café que os afastasse daqui?”. Não. O embaraço não vinha de uma empatia.

Foi de manhã assim, em pleno sol e energia, que um menino e sua mãe não tinham dinheiro nem comida para a principal refeição do dia. Comer, para toda a gente, mas principalmente para os pobres, é razão fundamental de viver. E lhes faltava nesse dia a razão. Tudo, portanto. A casa onde moravam era pequena, um arremedo de casa, a área toda a de um quarto de casa decente, que recebera três divisões: sala, quarto, cozinha, três celulazinhas. O pai do menino passara dois dias sem voltar para casa, e assim procedia porque se entregara a nova paixão. Estava de novo amor. Talvez, quem sabe, porque Dona Maria, a mãe do menino, estivesse uma senhora gorda, a disputar em programas de auditório no rádio o prêmio de igualar o peso de uma cantora ainda mais gorda. E, verdade, tantas vezes conseguiu igualar o peso da estrela que terminou por receber um prêmio de consolação, um corte de fazenda para fazer um vestido, que nunca fez, porque o vendeu. Para quê vestido, se comer era mais importante?

Foi em manhã como a desse domingo. De repente, assim como a água que chega sem aviso, um portador trouxe para Dona Maria, como prova de que seu marido não fugia aos deveres do matrimônio, quando tudo era aflição, eis que um anjo lhe traz uma nota de duzentos cruzeiros. Sim, o menino lembra, uma cédula que trazia no verso o Grito do Ipiranga. E o que ele mais lembra: mal o portador se ausentou, Dona Maria puxou o filho para o quartinho-célula. E o que ele mais lembra, fundamente, como a sua mais íntima e guardada pele: Dona Maria pulava, rolava pela cama, e sua alegria era tamanha que chorava de felicidade. Nos olhos vermelhos, nas bochechas subitamente róseas, a alegria dela não se continha, pronta a gritar, a anunciar para a rua: – “Hoje temos almoço! Hoje temos galinha!”.

São coisas assim que humano nenhum esquece. Por mais barbas e fios brancos o menino receba da vida. Por mais que cresça, e ganhe emprego em bancos, e garatuje umas linhas, e compre casas cuja área vale 20, 30 vezes a área do quartinho onde viu aquela senhora gorda pular. Chorar de felicidade, ele sabe, houve uma vez. Quem viveu essa alegria jamais deixará de ser um menino descalço, sem camisa, de calção frouxo. Agarrado à sua mãe e a uma cédula de 200 cruzeiros.

Uma noite na Bahiana

Era de noite, em 31 de dezembro de 1967.

De manhã o sol bufara, o vento soprara, a tarde se fez clara. Papeizinhos coloridos cobriam a cidade, árvores enormes de papelão estendiam os braços sobre o trânsito, papais noéis gordos pedalavam do alto das lojas, lacerdinhas choviam nos olhos dos incautos. Na ponte que passa sobre o rio, o prefeito da cidade, baixinho, demagogo, o burgomestre, desejara em letras luminosas um Feliz Natal e Próspero Ano-Novo. Nas vitrines, bolos, doces, em profusão. De tantos doces moscas fartas adejavam tontas esbarrando-se, formando nuvens sob o azul da Veneza Americana, unindo-se às abelhas que iam parar na cabeça de Joaquim Nabuco, na praça do mesmo nome, circundando a cabeleira em grossas ondulações de um estadista no império.

Éramos três: eu, meu amigo geômetra, e um guia, amigo também. Chamar-nos-emos, eu, Peito de Nuvem, Diáfano Como a Brisa, meu amigo geômetra, Bondoso Como um Arcanjo, o nosso guia.

Íamos à Bahiana.

Naquela época, só o Todo Bondade não era adolescente. Nós outros dois, por volta dos dezesseis anos. Bondade, não, já passara dos vinte.

Vivia de expedientes. Um trambique aqui, uma chorada ali, uma vigarice mais adiante. Andava de camisa Volta ao Mundo, dupla face, cor marrom na frente, cor de creme atrás, óculos escuros, chapa frouxa encardida nos dentes precocemente cariados. Vinha da zona da mata, pois o pai abrira falência, um senso de sobrevivência rápido, prático, já urbanizado, fã de Gary Lewis e seus Playboys. Com os discos desse conjunto, dois ou três compactos, parece, um LP emprestado dos Beatles, circulava nas festinhas de fim de semana. Alimentava-se, como dizia, por verdade e cálculo para nos comover, de caldo-de-cana avec pão-doce. Éramos quase puros. O nosso amigo, escolado. Contava-nos anedotas picantes, que enrubesciam o meu amigo geômetra, e a mim perturbavam, para nos arrancar em troca uns dinheiros emprestados, que nunca nos pagava. Judas traiu Cristo por trinta dinheiros, nós, que não fundamos nenhuma religião, fomos sempre traídos pelo Arcanjo, do qual éramos discípulos.

Íamos à Bahiana.

Eu, Peito de Nuvem, intentava descobrir uma Regra de Ouro, uma Verdade Sublime de tamanha transcendência que engolfasse o subúrbio, e me alçasse ao reino dos céus. À direita de Deus eu andava, os pêlos ásperos no peito, carrancudo, aquela fase profunda que se quer misteriosa da adolescência. Estofado. Cheio dos Pensamentos de Pascal em mim. Grave.

Meu amigo geômetra era franzino, raquítico, míope. Branco de não se expor ao sol. Meticuloso, organizado, sábio. Passava horas a fio no estudo da geometria, embrenhando-se em intricados teoremas, lançando novas proposições, passeando desenvolto nas teorias de Gaspard Monge. De costas para o quadro, como se fosse girar e dançar um tango, desenhava firme com um só volteio uma circunferência, projetava rombóides, articulava elipsóides. Em suas mãos os diedros giravam, submetiam-se, rebatiam-se, reduziam-se à miséria de uma épura. Subvertia curvas, achatava-as contra uma reta imaginária, tornava-as ovais. Perseguidor da originalidade, pálido, subia ao vértice de um triângulo não- euclidiano, e balançava-se, suspenso na geodésica. Conversando conosco, gostava de nos pregar surpresas. Estava quieto, por exemplo, num canto calmo, mastigando sem pressa, e de repente dava um salto, insuspeito, imprevisível, para o murinho do chalé, escanchando-se ágil, como se, vaqueiro, pegasse um cavalo em movimento. Punha-se a olhar-nos muito sério: esperava a nossa aprovação, ou a nossa chocada repreensão. Um acrobata. Mas eis que ele pula de novo, dessa vez para trás, ameaçando um salto mortal. Sim, senhor, íamos todos à Bahiana.

Chegamos lá às oito. Melhor dizendo, eu e meu amigo geômetra. Já na Avenida Rio Branco nos separamos, com medo talvez de afundarmos todos num mesmo pântano, Bondoso seguindo prum lado e nós pro outro. Marcamos ponto de retorno ali mesmo, em frente ao Moulin Rouge, às onze e trinta, margem de tempo suficiente para a nossa aventura (uma empresa que ia dar o que falar, atinávamos, sem prever por quê), e a volta ao lar, de táxi, às doze em ponto. Estávamos bem vestidos. Quase que trajados para uma noite de gala. Eu, de calça nova, escura, comprada num alfaiate que vendia no térreo de um edifício na Siqueira Campos, camisa vermelha. Rubro-negro de relógio no pulso, um relógio grande, bolachão, que só vivia parando, que de vez em quando me fazia dar um sacolejo no braço pro ponteiro trabalhar, disfarçando num cacoete. Relógio bonito no escuro, com luzinhas verdes iluminando o pulso, arranjado no contrabando da beira do cais. Sapato do ano passado, mas bem cuidado, pois que pisava cauteloso, evitando poças, dias de chuva, de muito sol, barro ou asfalto muito áspero. Sapatos bem engraxados.

O geômetra combinava uma calça roxa com uma camisa muito branca, limpa, bem engomada, de botões graúdos fechando-lhe o pomo-de-adão, mandada fazer há uns três meses e ainda não usada numa costureira conhecida. A camisa mais se assemelhava a uma nobre bata, de mangas pelo cotovelo, passando-lhe na cintura, de linho grosso, empertigada, com a dignidade de um uniforme de soldados reais em parada militar. De vida própria, autônoma, dançava no magro corpo do matemático.

Tinha os óculos brilhando na noite do dia trinta e um, com infinitas camadas, apequenando-lhe os olhos constantemente piscando, fechando-se, abrindo-se, abeirando-se das coxas nuas das senhoritas, como se o mundo estivesse sendo descoberto naquela noite, querendo saltar das órbitas, fazendo um arco de cento e oitenta graus, revirando, pedindo clemência aos céus por rever a perdida serenidade. Quase diziam, Pai, se vires que nesse cálice eu vou com muita sede, afasta de mim essa prova, ao mesmo tempo que insinuavam, deixa-me embriagar com vontade, paizinho.

Temendo poeira, constantemente limpava as lentes com um lenço azul, enxugando os vidros de uma imperceptível umidade, soprando, arejando, pondo contra a luz o vídeo do radar que trazia para a tela uns lábios vermelhos, uns cabelos perfumados, hum … seios em decote ao pé das escadas das pensões.

Subimos à Bahiana. Pela resolução nos passos, dávamos a impressão de velhos marinheiros, ou de que éramos esperados. Senhores dos nossos impulsos, marchando rítmicos, os punhos cerrados, íamos com a decisão de quem vai comprar uma briga. Sem comentários enquanto ascendíamos. Respirando fundo.

A primeira impressão que senti foi a de que ali não era o meu lugar. Se existe uma expressão que diga acanhamento, medo, pavor, defesa, paralisia, enrijecimento da locomoção, este foi o meu sentimento. Olhei para o meu amigo geômetra: ele se enroscava em seu nascimento. De repente, vimo-nos jogados no centro do salão, no centro de tudo aquilo que imaginávamos como vida farta, luxúria, soltar-se à larga, expansão num bacanal, enfiamento num carnaval sem medidas. Olhei de novo para o meu amigo. Altivo, parecia pedir-lhe explicações: ele estendeu o queixo para longe, cofiou uns buços de barbicha, pôs-se a abrir os braços, como se quisesse diminuir a sua densidade, sentir-se leve, fluido, etéreo. Senti que enquanto ele procurava mostrar-se elegante, bem posto em sua armadura, sob a luz negra da sala, estava na verdade quase a cair. Toquei-lhe o ombro, mas desfiz imediato o gesto, pois temi vê-lo sair flutuando, pairando sobre os objetos. Dirigiu-me um olhar significativo, que não entendi, mas mesmo assim me pus a balançar a cabeça, aprovando ou reprovando, como um inspetor que fiscaliza o quarteirão. Pensei em sair do lugar onde me plantei, mas meu sapato pareceu ter-se agarrado nalgum chiclete. A música estrondava. Uma rapaziada desabusada dançava colados nas meninas, rindo, fazendo voltas, tirando finos nos dois investigadores da moral e dos bons costumes. Cruzei os braços sobre o peito. Onde estaria o nosso guia a esta hora? Uma mulata gorda, notei, já tarde, sem tempo para reagir, começou a vir em minha direção. É agora! Um sistema de alarme começou a soar, campainhas de metal danaram-se a retinir, discos começaram a chocar-se, uma música longínqua de esferas siderais, um cordão sem fim de despertadores a trinar. Olhei para o meu relógio: estava no mesmo lugar. Cerrei mais ainda os braços. Era agora ou nunca. A mulata começou a se roçar, e eu, em desespero de causa, comecei a farejar o teto. A mulata me abraçou, sempre à vista de todos, e eu, perdido, olhei-a com a cara da mais deslavada indiferença: cara de rapaz experiente. Os braços fechados começaram a estalar minhas costelas. A moça sorriu:

–         Vamos dar uma, meu filho?

–         Não, por enquanto não – e muito solene acrescentei: – Estou sondando o ambiente.

Sentamo-nos a uma mesa. Pedimos cerveja e bebemos com sofreguidão. Fazíamos comentários sem nexo, sobre a decoração do ambiente, o revestimento de papel nas paredes, aquela cerveja estava fria, esta mais gelada, tem cigarros?, uma carteira, o som da radiola era potente, o chão era de madeira mesmo. A mulata bem junto a mim, com a coxa sobre a minha perna. Eu bebia. Meu amigo me confidenciou que estava de olho numa lourinha, a lourinha é boa, rapaz, sim, certamente. Romântico, num clichê das novelas de rádio colgate palmolive, aproximei-me do ouvido de minha moça, e lhe disse, aveludando a voz, que meu amigo estava enamorado da lourinha, se ela não tinha interesse de sentar em nossa mesa e acompanhá-lo, isto dito com um ar de quem ajuda um pobre infeliz. Claro! Num gesto subreptício, incrível, a lourinha já estava em nossa  mesa, ao lado do geômetra. Dividimo-nos então. Levantei-me, peguei da mão da mulata, como um cavalheiro da nobreza, e trancamo-nos num quarto de tabique.

Ela me ajudou e foi gentil, ensinou-me onde exatamente ficava aquele lugar, que eu queria que ficasse imediatamente abaixo do umbigo. Está certo agora?, arrisquei; sim, é aí mesmo, gentilmente aquiesceu. Sorriu. Apagou a luz do quarto e nos perdemos em sombras.

Enquanto vestia a calça comprada no alfaiate, eu me perguntava o que estaria fazendo àquela altura o meu amigo. Ele não bebia, não fumava, enxergava mal e não tinha físico ou habilidade para se defender. Passando o cinto, que eu, não sei por quê, havia-o todo tirado, imaginava-o morto, estendido no salão, ou desmaiado, com a lourinha aflita tentando reanimá-lo, ou ele sendo jogado para fora pela janela do segundo andar do pardieiro. Ou mesmo verde, violáceo, desconsolado, olhando os navios parados na penumbra do cais.

Saio, e o espetáculo que vejo não me deixa crer: o meu amigo está bem assentado em sua mesa, vermelho como uma lagosta, dando cotoveladas num marujo grego, soltando risada, de verbo fácil, com a loura no colo, com um cigarro nos dedos, fazendo bico, dando baforadas. E se dirige a mim aos berros:

– Cadê você, rapaz?, . e apertando-se na lourinha, aponta-me: – olha o homem!

Só consigo dizer-lhe, olhe a hora, rapaz, não vá se entusiasmar muito. Levanta-se, dirige-me ordens, que eu fique ali guardando a mesa, que agora é a sua vez, que a lourinha tá no papo. Encaminha-se ao quarto, ouço ou imagino em angústia a volta da  chave na porta.

Enfim a sós, põe-se sério. Apenas resfolega pelas narinas o fogo do álcool. Arqueja. Aos poucos vem ganhando controle. No seu habitual, vai, metodicamente, depois de estar nu, retirando o par de meias, uma por uma, lento, todo concentrado em seu ritual.

Pelo corredor ouvem-se pisadas fortes chocando-se contra o piso. Molas velhas das camas rangem nos cubículos vizinhos. Cheiro de urina rescende forte misturado a fermento de cerveja e rum. A radiola segue no hit-parade. Bater de copos, um apito no cais. No quarto, uma mesinha coberta de plástico com desenhos de dálias e rosas. Um jarro d’água, uma bacia, rolo de papel higiênico. Uma lâmpada fraca, de quarenta velas, dependurada na porta. Meu amigo geômetra não se perturba. Pálido, vai paciente deslizando a meia sobre o pé, concentrado no strip-tease do seu pé. A prostituta se impacienta:

–         Não é preciso tirar a meia, não.

E ele, acordando com um salto, que já o põe sobre a cama, torna a vestir a meia rápido, como se pego em flagrante delito:

–         Ah, sim, eu estava esquecido. Engraçado, eu já tão acostumado!

A moça sorri, e deitada sobre a colcha costurada de quadradinhos de panos diversos, deixa a pose de espera e põe-se a brincar com o geômetra, como se tivesse nas mãos um bibelô, um bonequinho de carne gracioso que faz piruetas. Diáfano, refeito, ele abre os braços, de joelhos sobre o colchão, e ameaça soltar um grito de tarzã na selva. A moça franze o semblante.

–         Meu filho, por que você é tão magro?

E o geômetra, gutural, ligeiro, contente do próprio reflexo na resposta de espírito:

–         É de meter!

Descemos acabrunhados para a rua. O efeito da cerveja passara. Apalpávamos os nossos bolsos, sentíamos o efeito da noite do dia trinta e um. Restavam-nos, se muito, juntando tudo, uns trinta e nove cruzeiros. Cabisbaixos, trocávamos resmungando as nossas impressões, a minha foi assim, já a minha fez isso. Normal? Normal. Onze e quinze. Estávamos na Avenida Marquês de Olinda, defronte ao Moulin Rouge. De longe, avistamos o nosso guia, vindo do lado do porto, balançando os braços, que ao ver as nossas caras, prorrompeu numa gargalhada sinistra.

–         Tudo bem? Rapaz, eu nunca, nunca… –  e acenava o dedo sobre o nosso espanto: –  Nunca, nunca em toda a minha vida eu tive uma relação como a que eu tive hoje. Vocês estão pensando que eu estou mentindo, é? A mulher não queria me deixar sair do quarto. Mulher carinhosa, rapaz, humana, não teve nenhum comércio no meio. – E depois de uma pausa tenebrosa: – Que foi que houve, não deu certo com vocês? Sinto, sinto muito, pois comigo foi diferente.

E repetia enfático: “Nunca, nunca, nunca…”, o nunca retinia em nosso ouvidos, fazia eco dentro da gente, deixava-nos sem vontade de articular qualquer mentira. Apenas balançávamos simultâneo os queixos, soltando aqui e ali uns gemidos. O nosso guia ria, e à medida do nosso desencanto, testemunhava-nos mais ainda  o seu encanto.

Foi ouvindo “nunca” que às onze e trinta pegamos um táxi e voltamos para casa. Para um bar em Água Fria, melhor dizendo. Já no bar, às doze em ponto, com todo o mundo se abraçando, aos votos de feliz ano-novo, Bondade nos contou às gargalhadas a verdadeira história do seu paraíso. A primeira experiência era sempre assim, assegurava-nos, e mandava-nos repetir o nosso acontecido. Contávamos. Feliz, pagou-nos um champanhe barato, do qual reforçava as qualidades afetando a pronúncia do “georges aubert”, enquanto lá fora os sinos da matriz de santo antônio repicavam. Entusiasmados, arriscávamos uns assobios para as moças que tomavam o rumo do reveillon: parecia-nos que passavam todas de branco. No céu, mil novecentos e sessenta e oito abria-se em fogos de artifício.

ORAÇÃO  POR  CHICO SOARES, CANHOTO  DA  PARAÍBA

(Fecho os olhos, para melhor falar, abro-os e ergo-os para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isto mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)

Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostrai  que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo, um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos. Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada. (É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?) Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:

O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado desta referência, ao ser encontrado na Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:

– Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”

E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz, como uma criança que se descobre nua em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:

– Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.

E desta maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto, a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente. Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade de sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar essas desrazões:

Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a  Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro:

Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma… terapia. Não essa terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isto, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isto já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disto ele não se queixa – está em repouso, não é? Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será!  Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação.

Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia de sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo, e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser  – da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba … nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do  estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste  ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente.

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade  humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que  jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.

O gênio dos livros

Tudo se passou em 1978, em Perdizes, São Paulo. A livraria ficava no meio de uma ladeira, com uma entrada para seu interior, ao qual descíamos por uns seis degraus, como quem entra num subterrâneo. Era entrar naquele antro e se deparar com livros, do chão ao teto, em curvas, em labirintos, em esconderijos secretos, até mesmo em portas ocultas, que se abriam pelo dom de um vendedor baixo, gordinho, que se movia perpétuo pelos títulos da Espanha ao México, do México à Argentina, da Argentina ao Brasil. Um vendedor que, não bastasse a extraordinária desenvoltura por tantas civilizações, e aqui não pensem que invento, atendia pelo nome de Virgílio. Esse homem vivamente me impressionava. Para mim, saído do Recife, de uma província em que o livro, o mais ordinário livro, tinha o peso cultural de um livro sagrado, esse homem vivamente me impressionava. Que naturalidade! Que simplicidade! Que cultura extraordinária possuía esse homem, tão baixinho no físico e ao mesmo tempo tão grande e tão alto como um moderno Virgílio, um homem que sabia todos os conteúdos e nomes de livros e autores e editoras e pronúncia na língua dos títulos e anos de edição e preços e locais e origens e países!!!

Um dos meus defeitos, ou virtudes, a esta altura da maturidade não sei, em resumo, para simplificar, uma das minhas características é não saber ocultar uma admiração. Em 1978 eu já era assim. Virgílio deve ter notado, tão transparente eu me punha em sua presença. E uma noite, antes de fechar a livraria, antes de seguirmos até a esquina para uma despedida no bar com uma mistura de cachaça e cinzano, ele quase me põe a ponto de arrebentar pelos poros de tanta admiração. Pois me disse:

– Eu sei onde está qualquer livro nesta livraria. Qualquer um. No escuro.

O acervo da livraria estava entre os grandes de livrarias de São Paulo. Não lhes digo o número de exemplares, porque isto me obrigaria a malabarismos de memória e de estimativa. Mas se vocês já viram indivíduos que decoram todos os números e assinantes de uma lista telefônica de uma grande cidade, poderão dar algum crédito a minhas palavras. Porque lhes digo que Virgílio me disse:

– Peça qualquer livro, qualquer um, que eu apago a luz, e com a livraria no escuro, eu encontro o livro.

– Traga-me O Capital.

– Siglo XXI ou Grijalbo?

Ele me trouxe, em poucos minutos, sorridente, o que eu lhe pedira. E lhes asseguro que fez sua busca no escuro, porque na porta da caverna eu o esperava. E com isto me deixou literalmente sem palavras. Os volumes que me exibia não estavam antes com ele, com absoluta certeza, até porque entre as suas habilidades intelectuais não estava a adivinhação. Fiquei sem palavras. Pior, ou melhor, para ele, com a cara de um camponês que acabara de ver a pessoa de Nossa Senhora de Fátima: Virgílio a sair do escuro com O Capital e a Era das Revoluções.

Saímos, fomos até a esquina. E me pus então a estudar em silêncio o fenômeno, a estudá-lo com uma cara de idiota, porque ele me disse:

– Pergunte, que eu respondo.

– Virgílio, você sempre gostou de ler?

– Sempre, muito. Eu gosto muito de ler.

– Quando você sai daqui, você mergulha nos livros…

– Depois do bilhar. Primeiro o bilhar, depois a leitura. Isto pra mim é sagrado.

– Sei… o que você mais gosta de ler?

– Eu adoro o Tio Patinhas.

Somente não caí por força da mistura de cachaça e vermute. Um de nós dois seguramente devia ser idiota. E Virgílio sabia, com toda certeza, que o idiota era quem tinha essa cara. Eu.

A visita  de  Einstein  ao  Brasil

Para usar de uma linguagem mais própria, devemos dizer: como a luz de uma estrela que vem do passado, assim nos atinge a visita de Einstein ao Rio de Janeiro. E com mais propriedade, acrescentar: se os 80 anos-luz que nos separam da estrela Algol fazem dela um lugar muito estranho e diferente da nossa Terra, o mesmo não podemos dizer dos 82 anos que nos separam da boa sociedade do nosso Brasil, quando Einstein nos visitou. Os seus tipos, os seus personagens continuam vivos, com uma sobrevivência além da lógica,  arqueológica, deveríamos dizer.

Relatam os cronistas que corria o ano de 1925. No princípio, Einstein não viria ao Brasil. Dizem que ele nem mesmo sabia que lugar seria este. “É um país tropical”, disseram-lhe. E como o sábio não relacionasse tropical a qualquer coisa conhecida, informaram-no de que era um lugar de selvas, de bananeiras, de clima quente, de macacos e papagaios. Então Einstein se moveu, e, aproveitando sua viagem à Argentina, alcançou o Brasil, porque seria, disseram-lhe, como dobrar uma esquina. “De Buenos Aires ao Rio de Janeiro é como ir de Berlim a Roma”. Entendo, respondeu-lhes Einstein, e mesmo sem entender fez essas duas viagens.

Os cronistas nada informam acerca de Einstein haver sido uma das primeiras vítimas dos pacotes turísticos. Alguns, e aqui se irmanam argentinos e brasileiros, afirmam que um turista como ele era um tipo bem difícil de se enquadrar em um pacote. Como levar um homem despenteado a um espetáculo de tango? perguntavam os argentinos. E por essa impossibilidade queriam dizer que o físico não se harmonizava, primeiro, com os cabelos gomados, e depois que o físico não possuía físico para as evoluções de um tango. Em nível menos óbvio, e esta era a verdadeira razão, o que não diziam é que um tipo como Einstein não era um ser que gostasse do que todo homem gosta: de vinho e de carnes nobres, da mesa à cama. Daí a confusão, o caos, um verdadeira indeterminação de Heisenberg em suas mentes, para regalar o cientista com um programa digno da sua dimensão. Daí que, não lhe podendo fazer um roteiro de humanos, fizeram-lhe um roteiro … científico. Palestras, conferências e perguntas tontas. Anotaria Einstein, ao deixar Buenos Aires, que era impossível ficar sério diante dos questionamentos que lhe eram feitos em suas conferências. Ele mal imaginava as emoções que o aguardavam a seguir.  “Que venha o Brasil”, o cientista se disse.

Na sua chegada ao porto do Rio de Janeiro só não lhe tocaram Cidade Maravilhosa porque a banda no cais não poderia tocar o que ainda não havia nascido. Mas as fotos mostram o cientista em um mar de curiosos, que lhe acenavam e sorriam como se ele fosse um astro de cinema. Se tivesse tempo para refletir, certamente diria o que certa vez se disse Borges, ao ser cumprimentado por muitas pessoas nas ruas de Buenos Aires, “eles acenam para um homem que pensam que sou eu”. Mas não havia tempo. Dali, sempre cercado por uma comitiva dos mais doutos cientistas, rumou para o Hotel Glória, onde pousou as surradas malas. Não havia tempo. Havia que visitar a comunidade israelita, ver a cidade, conhecer instituições respeitáveis, visitar o Presidente da República, e dizer a que veio: três conferências, a primeira no Clube de Engenharia, a segunda na Escola Politécnica e a última na Academia Brasileira de Ciências. Com direito a almoços e jantares nos intervalos, em locais diferentes, sempre cercado da mais douta gente, e o mais que aparecesse, e tudo no prazo de uma semana. Não havia tempo. Os organizadores da sua agenda conseguiram o que parecia impossível em 1925: transformar a bela cidade do Rio de Janeiro em uma anticidade.

E cabe aqui, de passagem, uma visão dos responsáveis por seus dias no Brasil, os doutores que o cercavam. Não havia, entre eles, um só físico ou um só matemático. Os doutores eram médicos, advogados, políticos, militares, embaixadores, e alguns engenheiros. Todos muito bem situados, ricos, a caminho de enriquecer, ou de prestígio no Rio de Janeiro.  Eram os doutores clássicos do Brasil: os donos de uma posição social, e que por isso mereciam e merecem o tratamento honroso. Com tal gente, o resultado foi o que se viu.

Na primeira palestra, no Clube de Engenharia, o salão ficou completa e absolutamente lotado. Políticos, graduados oficiais das três forças armadas,  altos funcionários, engenheiros, esposas e filhos e filhinhos, todos muito unidos na mais absoluta ignorância do que vinha a ser aquele indivíduo estranho e suas ainda mais estranhas e absurdas idéias. Com a vantagem, que os deixava ainda mais unidos, de não entenderem uma só palavra da língua alemã. Ou até mesmo de outra língua, diga-se, que não fosse o português falado na intimidade de suas casas. O que importava era ver o homem famoso em ação. E Ele era lento, logo se viu, porque em lugar de subir à mesa e de imediato cantar um cocoricó, bater as asas e se jogar pela janela, pôs-se a pervagar com os olhos a assistência, “com os seus olhos muito loucos”, como diriam depois. O que diabo eu vim fazer no Rio de Janeiro, perguntava-se o bruxo, enquanto esperavam que nos seus olhos entrasse alguma realidade sã. Como fazer, o que fazer, e como fazer diante daquela assistência, perguntava-se. Então o nobre e paciente cientista fez ver à mesa, em humilde francês, que não poderia falar em alemão, porque essa língua muito iria dificultar a sua compreensão Que fale em qualquer língua, pouco importa, ninguém irá mesmo entendê-lo, vontade teve de lhe responder o anfitrião. Mas preferiu dizer-lhe palavras mais gentis, em francês, porque era um diplomata de carreira:

– O senhor pode falar com a linguagem universal: fale pela língua da matemática.

O cientista sorriu, porque sabia que na matemática ainda não se inventaram os verbos necessários até na Teoria da Relatividade. E passou a expor, em lento e paciente francês, como uma pessoa envelheceria menos depressa em velocidades próximas a 300.000 quilômetros por segundo. Ao que comentou, quando lhe traduziram, a velha senhora mãe do diplomata: “na teoria tudo é muito fácil”. O certo é que o cientista conseguiu chegar ao fim, em meio ao calor, entre o suor, o barulho e o choro de crianças, que mais sinceras se manifestavam com gritos e esperneios. Ao terminar, o que todos de imediato compreenderam, porque o cientista ficou de repente mudo e se deixou ficar imóvel a um canto e sentado, toda a assistência  se levantou e aplaudiu. Menos entusiasmado, Einstein anotou em seu diário, mais tarde: “Às 4 horas, primeira conferência no Clube de Engenharia numa sala superlotada, com ruído da rua, as janelas abertas. Não tinha nenhuma acústica para que me entendessem. Pouco científico”

No dia seguinte, para ser mais científico, foi à Academia Brasileira de Ciências. Ali foi homenageado em uma sessão que se anunciou como a maior já feita para o maior cientista de todos os tempos. Se alguma dúvida ele possuía que estivesse no Brasil, ali os acadêmicos trataram de tirá-la, porque o fizeram ouvir três longos, vazios e verbosos discursos. Ouviu de certa forma, devemos retificar, porque os discursos vinham em um francês que todos, acadêmicos e cientista, mal falavam. Falaram, falaram e falaram, pela ordem: Juliano Moreira, Vice-Presidente, sobre a influência da Teoria da Relatividade na Biologia, o que é lamentável, não a sua fala, mas a falta de um registro preciso desse discurso, pois teríamos um documento importante do nível mental dos nossos acadêmicos; depois foi a vez de Francisco Lafayette, que foi do movimento browniano, coisa que devia bem conhecer, até a síntese desse movimento na Teoria da Relatividade! As atas não registram, mas podemos imaginar o sorriso, de dor, de Einstein por essa extensão e deferência (dizem que mais dói um elogio que não merecemos);  e por fim, usou da palavra o acadêmico Mário Ramos, que entre circunlóquios e peroração  instituiu o prêmio Albert Einstein a ser entregue anualmente ao melhor trabalho científico. Então chegou a vez do homenageado, a estrela maior que viera dos espaços de outra galáxia. Pelo andar da carruagem, todos esperavam que o homenageado fizesse um discurso mais alto e vibrante que os precedentes, porque tais sessões sempre atingem um ápice, um paroxismo, e porque também haviam sido formados, os acadêmicos, pela ciência do latino, a grande e inexcedível eloqüência de Cícero. Que por ser um sábio Einstein babasse, cantasse uma ópera, ou mesmo caísse em um ataque fulminante, seria normal, pois que era um gênio. O cientista, no entanto, mais uma vez decepcionou. Em mau francês passou a falar, baixinho, à guisa de agradecimento, sobre a situação da natureza da luz em 1925. Os acadêmicos se entreolhavam, frustrados, mas sorriam a seus pares, todos muito sábios e senhores das equações de Max Planck. Mais uma vez, a platéia composta de políticos, jornalistas e doutores aplaudiu.

Eis que chega então o melhor dia. Na terceira e última palestra, na Escola Politécnica, não houve a invasão do grande público, das senhoras mães com seus filhinhos, dos oficiais com galões e de velhos generais nascidos no século dezenove. A julgar pelos jornais, “o Professor Einstein pôde desenvolver a sua palestra sob um ambiente tranqüilo, e dessa maneira os cientistas brasileiros acompanharam-no passo a passo na sua exposição”.  Nem tanto, e por favor acreditem, porque nada é mais rico que a própria realidade. Um desses grandes nomes da ciência, um desses físicos era o jurista Pontes de Miranda. Sim, um jurista. Pontes de Miranda vinha a ser o autor de uma extensa obra que procurava construir a ciência do direito conforme as idéias positivistas. O nome da obra era digno de figurar em letras de ouro, nas bibliotecas dos doutos cientistas da advocacia: Systema de Sciencia Positiva do Direito. Pois é esse homem que a falar em alemão desafia Einstein, para maior fascínio dos cientistas presentes:

– Data venia, Herr Einstein, a Teoria da Relatividade não considerou as implicações metafísicas das hipóteses que aventa. Das ciências físicas até as ciências jurídicas a diferença, saiba, é de grau. A Física mantém um pacto com o mundo da sociedade também, e é pacto que tira e põe, mas não deixa intacto o que estava. A questão é tanto mais delicada quanto a afirmação de não se poder alegar o erro e a de se exigir a capacidade objetiva e o além da capacidade objetiva, que leva a argumentos a favor de uma e de outra opinião. Falta na Teoria da Relatividade o conhecimento, a informação de que não é só o mundo em si, an sich, de que ela trata. Há de se ver que nas suas conseqüências, falta o desdobramento de um mundo para nós, für uns…

A platéia delirava diante de tal brilho. O cientista sorria e mantinha silêncio. Quando acabou o discurso do jurista, a contestação à Teoria da Relatividade naquele tribunal, o físico se levantou, e como a se despedir, entregou a um dos acadêmicos um papel onde se lia:

“Die Frage, die meinen Kopf entsprang, hat Brasilien sonniger Himmel beantwortet” (“A questão, que minha mente formulou, foi respondida pelo radiante céu do Brasil.”)

Era uma referência ao eclipse do Sol, observado em Sobral, no nordeste brasileiro, que em 1919 comprovara a previsão do cientista quanto à deflexão da luz pelo campo gravitacional do Sol. Mas assim não entendeu bem o ilustre jurista, que ao ler aquelas palavras interpretou-as como uma resposta à sua intervenção. Pois não era dia de sol e azul o céu do Rio de Janeiro naquela hora da palestra?

Da sua viagem ao Brasil, sabe-se, por fim, que Einstein levou um papagaio, recebido de presente de um homem do povo. Foi o maior regalo recebido em toda sua vida de um país tropical. Todos os dias o  papagaio lhe fazia lembrar, com graça e inteligência, o saber daqueles doutores de posição social. Data venia, Herr Einstein, data venia, Herr Einstein, repetia-lhe o papagaio. Os amigos contavam que tais arremedos traziam um pouco de luz às manhãs frias e escuras do Doktor Einstein.

NA  FORÇA  DOS  TEUS  17

Se a flor na sua pétala, se a pétala na sua maciez, se a maciez na sua delicadeza, e na sua cor, e na festa de formas e encantos para os olhos. (Faço pausa para respirar e ver e mirar e cravar mais preciso.) Se a graça do perfume que têm as flores, se tudo o que em um jardim é felicidade, se às formas florais juntássemos as formas musicais, nem assim os cheiros, dos mais suaves aos agrestes, nem assim as gradações de luz e sombra, do azul escuro ao vermelho inesquecível, nem assim os feitiços, das bruxas imaginárias aos laços ardilosos da natureza, teriam a graça e o movimento e a cor e a música dos teus 17 anos.

Se o coral é vermelho, há quem se espante. Se as pétalas em sua alquimia, em seu laboratório e cornucópia sufocam-nos, há quem se espante. Um raio que caísse agora e nos matasse, neste exato instante em que escrevo “um raio que caísse agora…”, muita gente disso se espantaria. Sem palavras, no entanto, deveríamos ficar ante esse maior espanto: um desabrochar que da flor guarda a semelhança deste verbo, desabrochar, um ser, que é uma pessoa mais importante que a preservação das florestas amazônicas, mais séria e organizada que a sobrevivência de todo pantanal, das garças às borboletas, das rãs que pulam no rio aos jacarés que passeiam com pássaros a bordo, uma senhorita mais fundamental que a sobrevivência nossa, dos chineses aos esquimós, dos mongóis aos europeus, dos negros aos caucasianos,  por que disto ninguém se espanta?

Escrevo a interrogação acima e este escrever me envergonha. Porque sei que não deveria escrevê-la, porque sei que assim me exibo mesquinho e estúpido e pequeno e burro, quando apenas queria dizer o maravilhoso do meu amor por esta senhorita. Deveria haver um limite entre o sublime e o ridículo. Mas deveria ser, compreendo, mais ridículo ainda o indivíduo que respeitasse esse limite. “Daqui não passas”, diria a fronteira, “ou cairás na loucura, e na absoluta idiotia”. Ah, senhor guarda fronteiriço, viver só vivemos uma vez, e não vale a pena continuar no bom senso, no burocrático sensato ponderado, quando a maravilha é beber no horizonte que se descortina. Porque tenho diante de mim este sublime:

Eu vejo aquela criancinha que veio ao mundo miudinha se transformar numa jovem que põe os óculos sobre o nariz, e com a pontinha do nariz assim erguido, declara que vai estudar Filosofia. Ah, senhor guarda de fronteira, considere que a gentil mocinha sequer conhece a complexidade de Kant e Hegel, sim, mas de imediato isto desconsidere, porque ela mistura o belo e o pensar, numa fecunda intuição, e por isto mistura filosofia a poesia, sem se preocupar com os métodos pesados e distintos objetos e gêneros. E porque gosta de poesia, acha muito interessante, e original, e à altura do sonhador peito e perfil, acrescentar essa rima do pensamento livre, poesia, filosofia, sem fronteiras. Por que dessa mudança, transformação, metamorfose, mais complexa e imprevisível que a da natureza da fauna e da flora, ninguém se espanta?

Por isto retomo, apenas como uma aproximação de um fenômeno mais complexo, delicado:

Se o tempo parasse agora, nesta exata clara manhã. Se a orquídea fosse a mesma orquídea hoje e sempre. Se o movimento das pétalas, se as cores das macias pétalas, se as formas e os perfumes e o frescor das pétalas fossem eternas, se este encanto para os olhos fosse imorredouro, ah, nem assim a orquídea, a rara flor do campo atingiria a graça do ser que és, menina que deixas a infância.

Ouço o teu riso lá fora, e isto me desperta uma contraditória afeição. O teu riso para mim é um bem que me enche de felicidade. O teu riso para outros, como agora no portão, me cobre um véu escuro, me deixa um pouco órfão, porque dele não sou o destinatário. Porque nem só de amor somos feitos, menina que deixou a infância. Também somos feitos de mágoa, raiva, sexo e incompreensão. De todo esse lixo e rebotalho, que não percebes, enquanto sorris e gritas ao portão. Por isto me falta a coragem de ir ver para quem sorris e gargalhas. E me consolo, a me dizer, quem recebe o seu sorriso é incapaz de vê-la com as palavras que agora gravo.

No dia do teu aniversário, pediste-me primeiro Neruda. Fiquei contente, exultei. Depois, mais prática, achaste melhor ganhar um par de sapatos. Minha resposta foi um silêncio. Os sapatos se gastam, eu não te disse, porque talvez eu não fosse compreendido. Nada te dei. Agora espero que ao fim destas linhas me compreendas. Porque assim te saúdo:

Luanda de Angola, Luanda dos negros, Luanda de todas as raças, esta canção é o presente na força dos teus 17 anos.

Felicidade à brasileira

Há duas semanas, precisei de um atestado de sanidade física e mental. Quem me conhece sabe que esse atestado, aplicado ao indivíduo que sou, ou é desonesto ou é impossível. Mas que fazer, a gente precisa, e necessidade não tem lógica, tem é a carência enorme, à procura de satisfação. Eu buscava, portanto, um Atestado de Sanidade Física e Mental. Assim em maiúsculas fica até mais digno, e mais crível. Por isso abro o catálogo telefônico e destaco os números de telefone dos centros médicos, Centro Médico, devo dizer, para maior idoneidade dos Centros. Ligo, e começa o nonsense.

– Roseli…

– É do Centro Médico Ulisses Eulâmpio?

– Sim, Roseli, às suas ordens.

– É do Centro Médico?

– Sim .. um momento.

E depois de 3 minutos de intervalo, por vingança, suponho, porque eu não soube logo que o Centro Médico Ulisses Eulâmpio e Roseli eram uma só e só uma pessoa.

– Sim…Fale.

– Vocês fornecem atestado de sanidade física e mental?

– Atestado de….

– Sanidade Física e Mental.

– Só o Físico.

– E o Mental?

– O senhor tem que ir a um médico de doença mental.

Antes que eu agradeça, a recepcionista que é uma instituição desliga. Ligo para outros, outros Centros Médicos, outras Centrais de Atendimento de Saúde, até para Hospitais. Sempre a mesma conversa. Só o físico atestamos, o senhor, se quiser, que vá a um psiquiatra pegar o outro. E o outro, bem sei, por mais características certas e inabaláveis de esquizofrenia, o outro sou eu. Que não vai correr esse risco. Por isto este, aqui, volta a um décimo Centro Médico de Saúde.

– Escute, vocês não têm médico clínico geral?

– Só temos especialistas.

– E não têm dois especialistas, um físico e um mental, no Centro?

– O senhor deveria ir a um Hospital Psiquiátrico.

Desligam. Mas o louco, que bem sabe estar no Brasil, terra de todas as possibilidades possíveis e imaginárias, não desiste. E lhe dizem, na vigésima primeira tentativa.

– Centro de Medicina do Trabalhador.

– Vocês fornecem atestado de sanidade física e mental?

– Sim, fornecemos.

–  Atestado de Sanidade Física… e Mental?!

– Sim, fornecemos.

– Certo…. (E repito, para maior certeza)… Atestado de sanidade física e mental.

– Um momento….

E por vingança, suponho, deixa-me a esperar bons 4 minutos, porque não ouvi bem, e se ouvi deveria ter acreditado que ali se fornecia Atestado de Sanidade Física e Mental, sem dúvida, idiota.

– Centro de Medicina do Trabalhador….

Imagino, porque estou em casa ainda, imagino que o Centro de Medicina do Trabalhador é um complexo industrial-médico cheio de canos, retortas, e de  portas, e laboratórios, e corredores compridíssimos, cheios de especialistas de todas as especialidades, se assim podemos dizer. Um lugar onde entramos em uma porta e saímos em outra, de exames de raios X a laboratórios de análises, de laboratórios a máquinas de eletrochoques, até atingir as perguntas cruciais de psiquiatras, que nos estudam e nos olham como se fossem a Miss Marple de Agatha Christie. Imaginação vulgar, estúpida e insípida, já vêem.

– Me diga uma coisa: demora muito pra pegar esse atestado?

– Não, é ordem de chegada.

– Tem muita gente aí?

– Centro de Saúde do Trabalhador …um momento. Agora, só uns quinze.

– Vocês atendem por algum plano de saúde?

– Centro de Saúde do Trabalhador….. O pagamento é na hora.

– E quanto é?

– Quinze reais.

Desta vez sou eu que desligo. Quinze reais! Isto ou é uma absoluta anarquia, uma grande zona, ou deve ter algum subsídio para, depois do check-up, diagnósticos, especialistas e consultas, atingir um preço tão barato. E me mando, necessitado e incrédulo que sou, para o centro do Recife.

Ó homem de pouca fé, ainda que vivas em um país cafeeiro, creias, o Centro de Medicina do Trabalhador existe, e não é  uma absoluta zona. É um lugar com aparência decente (“como deve ter todo prostíbulo que preste”,  um satanás me diz). Mas não. Ali entro em uma sala, com duas atendentes. Que me parecem moças da maior seriedade. E por isso pergunto, com um pé atrás, em um intervalo de suas respostas ao telefone, “Centro de Medicina do Trabalhador”:

– Atestado de Sanidade Física e Mental … é aqui?

– Aguarde a sua vez – ela me responde, enquanto me entrega um papelzinho numerado, que leio, “ficha 27”.

Olho ao redor. À minha frente, jovens recém-saídos da adolescência, e um deles sem dúvida é um rapaz típico de Pernambuco. Veste uma camisa negra, com as palavras, digo, com o anúncio, “Quick Silver”. Palavras em inglês, nas camisas, para muitos jovens do Recife têm um valor estético, porque as vêem com o mesmo significado de um ideograma chinês. Ao lado, um cidadão gordo, um quase velho, diria, se eu não estivesse em idade próxima à dele. Um inválido, eu acrescentaria, se nos últimos tempos eu não estivesse bem solidário para com os inválidos. Um homem, enfim, completo, que não passará com a sua imensa barriga em qualquer check-up. Ele sequer passa na abertura da cadeira, e por isto se põe um pouco de lado, a subtrair uma parte do largo traseiro no assento.  Veste uma camisa bege, e percebo que outros também se vestem como ele, é uma farda, e todos eles possuem uma fita azul ao pescoço, que desce para um crachá, que deixam no bolso, onde está escrito “Tribunal de Justiça de Pernambuco”. Ah, bom, então isto aqui é sério, jamais será um prostíbulo, creio. Seis funcionários da justiça, chego a contar. Da Justiça, corrijo. Seis honrados servidores da Justiça de Pernambuco à espera do seu Atestado de Sanidade Física e Mental. Ó homem de pouca fé. O negócio, digo, o atendimento médico é garantido pelo órgão máximo das leis do Estado. Por isso, em paz e silêncio espero, para não descansar em paz.

Abre-se uma porta. Sai uma senhora, jovem, com uma bata branca. É médica, me digo. Porque os médicos usam bata branca. Mas não só: a jovem moça que sai tem um certo ar de confiança, da mais certa e certeira impunidade. Esse ar dos maus médicos, devo acrescentar, para viver sem a sua ameaça. E me calo, sob a proteção dos funcionários do estado. A jovem passa, volta e se fecha em uma sala, misteriosa. A senhorita da recepção me chama. Enquanto preenche uma ficha, que deve ser a minha, pergunta:

– Altura?

– Um metro e setenta. (Quis dizer um e oitenta, mas por modéstia reduzi dez centímetros)

– Peso?

– Setenta quilos.

– Aguarde.

Depois que me sento, descubro que por simetria informei meu peso em concordância com a minha altura. Um excesso de estética me fez descer o peso em quinze quilos. Mas é como se eu os tivesse, me digo. Mentalmente, sou um homem esbelto. No ideal em que me vejo, tenho um e oitenta de altura e peso setenta quilos. Guapo melhor não há.

Eis então que chega a minha vez, e uma porta se abre para meu primeiro exame do Atestado de Sanidade Física e Mental. O médico que me atende, devo dizer, o médico na frente do qual eu me assento, tem os olhos fitos na minha ficha estética. Ele não me olha, coitado, compreendo. A seu lado, possui uma pasta grande, aberta, cheia de fichas,  e um papel com quadrinhos, que imagino ser um mapa estatístico, dos seus atendimentos na manhã. Quantos? Sessenta, noventa, cento e vinte? Sem me olhar, sem me ver, pergunta o pobre homem:

– Alguma doença?

– Não.

– Já fez alguma cirurgia?

– Sim….

O seu rosto ganha um ar de enfado, de aborrecida contrariedade. E sem me perguntar qual cirurgia e por quê:

– Mas tudo bem, não é?

– Sim, tudo bem.

– Fuma, bebe, drogas, tóxicos, algum vício? O braço.

Estendo-lhe o direito, a pensar que ele vai procurar,  com percuciência, algum sinal de picada, marca ou tatuagem. Engano. Ata-me um tecido, ágil, pelo que sinto, na altura do antebraço, e com dois apertos em uma bola escura olha rápido o ponteiro em um medidor.

– Pode ir.

Confesso que lhe estendi a mão, para um cumprimento, que o pobre homem não pôde corresponder.

– O próximo.

Na recepção, a gentil e decente moça entrega-me um papel já assinado por um médico, que deve ser o mesmo na frente do qual eu transitei. Saio à rua, rápido, antes que ela se arrependa e me chame de volta. Leio e releio o documento. “Declaro, para os devidos fins, que o portador se encontra em perfeito gozo de saúde física e mental”. Que belo, que bela é a nossa organização física, mental e declaratória. Que belo. Jamais poderia imaginar que por quinze reais eu seria um homem esbelto, saudável e feliz. No mais estrito cumprimento da lei.

Paulo Coelho ganha o Nobel de Literatura

O escritor ainda não havia acabado a sessão de arco e flecha.

Repórteres invadem o campo onde se localizam o alvo, o autor e o arco. A notícia já correu o mundo, desde a madrugada. The Guardian, The Times anunciaram em primeira mão: o escritor Paulo Coelho, um dos mais importantes autores de língua inglesa do século, é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2008. E mais: “a Academia sueca, que decide quem vai receber o prestigioso prêmio de US$ 1,5 milhão, fez o anúncio neste sábado, descrevendo Mr. Coelho como um ‘autor de épicos sobre a experiência mística, que, com fervor e poder visionário, expôs uma civilização dividida entre o ser e o pós-ser’”. Não importa mesmo procurar saber o que isso quer ou pretende dizer. O importante é saber que mais um escritor em língua inglesa, com o devido respeito pelo país de origem do Senhor Coelho, conquista o prêmio máximo da literatura no universo. Os brasileiros, ainda mal inseridos no mundo globalizado, bem que tentam repor o Nobel em seu lugar de origem.

O Globo, após alguns salamaleques de ofício à civilização inglesa, ousa insinuar que Paulo Coelho é brasileiro, da cidade do Rio de Janeiro, com residência física em Copacabana. Mas que, bem, a julgar pela qualidade de suas traduções para o “idioma de Shakespeare”, é compreensível que o novo, quem sabe, Sir, divida as honras com o império onde outrora o sol jamais se pusera. A Folha de São Paulo, em sua natural objetividade, exclama que o autor Paulo Coelho é tão bom, que mais deveria ser dito que ele está em um patamar além-Brasil. Ou, para bom entendedor, em Londres, of course. Um pouco antes deste prêmio consagrador, os críticos literários da Folha haviam escrito que para o Senhor Paulo Coelho, em lugar de um patamar, o mais próprio seria um patíbulo. Agora tudo é diferente. Como não podem dizer de Coelho o mesmo que disseram o ano passado, quando Doris Lessing foi premiada, a saber:

“…. sempre desconfiou de pernas peludas. Foi casada, sim, mas não recomenda a ninguém o uso de alianças. É alérgica. O carnê dourado (1962), que lhe abriu as portas do mundo literário e do mercado, explica as razões. Nele, a protagonista Anna Wulf é uma espécie de alter ego, louca para ser livre, mas presa a convenções e a um sentimento de culpa ancestral. Algo esquerdista, cheia de dúvidas e vivendo com sua filha numa Londres do pós-guerra….”,

dizem:

“Os seus livros trazem um resumo da filosofia de vida de Coelho e são baseadas nas histórias e fatos de diferentes culturas e partes do mundo. As Valkírias, por exemplo, conta a história real de um homem e uma mulher que vão para o deserto e – sem utilizar qualquer recurso artificial ou sofisticado – decidem entrar em contacto com o Anjo da Guarda. No estilo que o consagrou como escritor mais lido desta geração….”.

Ou seja, em um comportamento modelar, porque se repete em toda a imprensa, cambiam o não se deve ler (porque jamais li) por um incesto entre releases da editora e um envergonhado ufanismo. Até mesmo o português dos livros de Paulo Coelho, que longe está de ser o da chamada norma culta, escrito em um estilo que jamais receberia o aval do Padre Vieira, passa a ser elogiado pelas excelentes traduções que recebe na língua do King James.

Há o fato. Paulo Coelho é o autor brasileiro – natural do Brasil – mais lido em todo o mundo. O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar na lista dos mais vendidos em 20 países, e vendeu, até 2008, 40 milhões de exemplares. A biografia de Coelho foi vendida para editoras em Frankfurt antes mesmo de concluída. Existe agora o fato maior: o Nobel de Literatura 2008 é dele. Por isso os editores dos periódicos põem-se à caça do Nobel japonês Kenzaburo Oe, urgente, para arrancar dele frases de sagração, como antes ele dissera: “Paulo Coelho conhece o segredo da alquimia literária.”. Os textos sobem a página com destaques do gênero “Paulo Coelho é um dos cinco autores mais vendidos do mundo. Mas em vez de oferecer aos leitores relatos aliciantes de violência, sexo ou suspense, Coelho escreve acerca de pessoas normais que se colocam em situações extraordinárias com a finalidade de incentivarem o seu eu interior, e fá-lo com uma prosa simples e despretensiosa.” Ora, que tesouro tínhamos e não sabíamos antes.

Por isso agora os repórteres cercam o mago, que mal teve tempo de pôr de lado o seu grandioso arco. Eles vêm em horda, simpáticos, cordiais, íntimos, íntimos como só os repórteres conseguem ser.

– É verdade que escreveu O Alquimista em quinze dias?
– Sim. Todos os meus livros são escritos num período de duas a quatro semanas.

– Você recebe… algum espírito?

– Escute. Escrevo. Mas levo no mínimo dois anos pensando. A revisão dura mais uns quatro meses.

– Os fatos narrados em As Valkírias são reais?
– Que fatos?

– Aqueles… pra dizer a verdade, o editor me mandou fazer a pergunta.

– O episódio mais importante, o encontro com o anjo, aconteceu realmente.

– Como é o anjo?

– Tem asas.

– O que faz um Nobel de literatura?

– Escreve.

– E que mais?

– Bebe, come… e transforma o que come em coisas menos nobres.

– O senhor conseguiu o Nobel aos 61 anos. Cedo, não?

– Eu deveria esperar meus 87 anos?

– Em O demônio e a srta. Prym, o senhor responde à pergunta o homem é bom?

– Eu não sei. O repórter é bom?

–  Como, senhor?

– Essa pergunta não tem resposta. Um anjo e um demônio estão sempre do nosso lado….,

– O senhor é um anjo?

– … o que irá se manifestar é aquele que escutamos mais….

– O senhor é um anjo?

– É melhor prestar atenção ao que estou dizendo…. O livro mostra este duelo, e mostra também como a sociedade pode manipular o conceito de “bondade”.

– Que livro?

– ……

– O senhor é um demônio? (Outras vozes) O senhor é alquimista? O senhor é autobiográfico?

– Acredito no conceito de “Anima Mundi”…

–  Imundo?

– …Alma do mundo….  cada pessoa, através da total dedicação ao que faz, entra em contacto com a inspiração do universo – e é daí que vêm os meus personagens

–  Isso dá muitos dólares, não dá?

… do amor pela vida e pelas coisas que vivo.

– Vários de seus livros são narrados do ponto de vista feminino. Como um homem

consegue retratar tão fielmente as mulheres?
– Quando escrevo um livro estou sobretudo tentando resolver algo comigo mesmo.

– O senhor é gay? Perdão. O senhor teve experiência gay?

– …Eu preciso me entender e achei na literatura a melhor maneira de fazer exatamente isso. Eu sou os meus personagens e eles encarnam meu espírito. Se consigo então escrever do ponto de vista de mulheres é que deixo meu lado feminino se expressar sem entraves.

– Quais são seus autores preferidos?
– J.L Borges, William Blake, Jorge Amado, Henry Miller.

– Só?

– Que livros a senhora já leu de Paulo Coelho?

– Muitos. O Alqumista. O Bruxo….

– Entendo. Do quê a senhora gostou mais no livro O Bruxo?

– Ah, tudo, não é?

– Maravilha.

– O senhor sabia que o publicitário Olivetto declarou que o senhor é a nossa Coca-Cola?

– Lindo. E qual o slogan, eu poderia saber?

– Paulo Coelho é que é.

O escritor, como um guerreiro da luz, então pega o arco e a flecha. Os repórteres, ainda que não tenham lido a Odisséia, e por isso, portanto, olvidam a volta de Odisseu ao palácio, os repórteres ainda assim recuam e abandonam o campo. A prudência é que é, melhor que Coca-Cola.

O chimpanzé, nosso irmão

Não faz muito, toda a imprensa noticiou a espantosa descoberta: 99,4% dos genes do chimpanzé são semelhantes aos do homem. Da imprensa mais grave, que deseja nessa gravidade passar um ar sério, à imprensa mais popularesca, que se vê na alta reputação de imprensa popular, toda ela, grave ou vulgar, divulgou a nova sem restrição, mas sempre conforme o próprio estilo. Na de maior massa exibiram-se fotos de chimpanzé fêmea com lacinho vermelho na cabeça; na mais sisuda evitaram-se as fotos, mas os títulos foram bem sugestivos, como os do gênero, “Chimpanzés e Homens, tudo em comum”. De comum mesmo, na imprensa de todo gênero, só o sensacionalismo, a leveza mistificadora, acompanhados do inseparável engodo. Pois uma e outra na ânsia de destacar os 99,4% passavam por cima, em vôo rápido, da palavra “semelhante” da divulgação original de Morris Goodman, da Academia Nacional de Ciências, dos Estados Unidos. Escreviam-na, a “semelhança”, é certo, mas o corpo, o conjunto do noticiado, organizava o “semelhante” com o mesmo significado de idêntico .

Sensacionalismo à parte, pois é do espírito da média imprensa o sacudir o nosso torpor para que nos subam à cabeça os melhores instintos de nossos ancestrais, sensacionalismo esquecido, seria bom uma viagem para o interior do espírito do chimpanzé da notícia. O que se divulgou sem discussão, repetido ao infinito, como um sucesso programado de hit parade, tentemos discutir agora.

O resumo da descoberta de Morris Goodman, publicado no site da Academia Nacional de Ciências, fala em “semelhanças” de 99,4% em 97 genes de homens e chimpanzés. Ora, o que esses números, 97 e 99,4%  , querem mesmo dizer? Primeiro, que do total de genes humanos escolheram-se 97. Certamente, por serem os mais significativos da existência do homem, supomos. Segundo, que desses genes escolhidos, apenas 0,6% foram absolutamente diferentes dos genes do chimpanzé. Paremos aí. Alguém já se deu conta de que, a depender da área, da região escolhida, da amostra, os números percentuais variam? Por exemplo, e nos perdoem o exemplo grosseiro, se se comparam os números de dedos dessas espécies, homens e chimpanzés coincidem em 100% . No entanto, se se comparam a identidade, a semelhança íntima entre os dedos de ambas, a variação pode ir de 99, 98, 100 a 10, 5, 8, 3, 2 por cento. Isto porque, a esta altura, teríamos entrado no dificílimo reino de quantificar qualidades. (Vá lá, concedamos, por qualidades comprendemos  “pistas orgânicas de evolução”.) Neste caso, os critérios, ainda que mais objetivos e transparentes pareçam, guardam sempre um traço de subjetividade, histórica ou pessoal. Que critérios elegeríamos, para serem comparados nos dedos, a sua superfície, a sua cor, o desenho da polpa, a sua estrutura íntima, ou …. , e qual desses critérios seria o caráter final, a natureza fundamental dos dedos? A depender disto, entre 0 e 100 a variação é infinita, ao gosto de quem o escolhe. Os números, quando não bem definidos, quando não referenciados com riqueza, em lugar do esclarecer, confundem. Pense-se, por exemplo, na quantidade de genes que um ser humano tem a mais que um rato. Não passa de 1% . Isto, 1% ! O que isto afinal quer dizer? Que escapamos por um triz de nos mover nos esgotos? Ou que 300 genes a mais, num universo de 30.000, são extraordinariamente mais significativos que todos os  demais 29.700?

O comunicado da Academia, quase diria, pela repercussão acrítica, o comando da Academia fala em comparação de amostras de regiões semelhantes do DNA entre homens e macacos. O que por “semelhantes” quer mesmo dizer? Assim fala o comando: “Comparamos 90 kb de seqüência do DNA de 97 genes humanos  com seus correspondentes seqüenciados de chimpanzés, gorilas …”. (Numa rápida olhada, vê-se o quanto é importante o número 90 para a pesquisa do biólogo: 90 kb, 97 genes, 99,4% , 98,4% .) Quer isto dizer que foram comparadas as regiões semelhantes de 97 genes? Sim, é isto. Mas, calma, a dificuldade ainda não vencemos. O que é, onde reside, a se supor um lugar preciso, físico, determinado, onde reside mesmo essa semelhança? O Comunicado, ou o Comando, fala em regiões que sofreram seleção natural. O que é, se bem compreendemos, uma localização bastante vaga, ou tão precisa quanto “uma certa casa no planeta Terra”. Pois, reconheçamos, regiões que sofreram seleção natural são  cada e todo e qualquer infinitésimo milímetro do organismo humano. Se não fomos criados de uma só vez por um sopro divino, cada ínfima parte do nosso ser é resultado de seleção, de luta, de sobrevivência da feliz reunião da sorte e do acaso.

Despercebida essa perigosa reflexão, que detém o avanço ligeiro do método discutível, fácil é passar para o passo seguinte, divulgado pelas melhores revistas, daquelas que ousam uma pose crítica. Assim se pronunciou esse instante raro de reflexão: “Com a chegada desse ‘novo’ parente …” (sintomático, as aspas caem sobre o novo, não sobre o parente ), mas não nos interrompamos: “Com a chegada desse ‘novo’ parente, o próximo passo seria descobrir o 0,6% de diferença genética que torna o Homo sapiens capaz de compor músicas, construir prédios e fazer pesquisas científicas”. Ou esse primor de originalidade de outra revista: “O certo é que, graças a esse 0,6%, um ser humano – Beethoven – escreveu a Nona Sinfonia …”. Percebam: são uns 0,6% muito revoltados, muito indignados contra os 99,4% ! Se falassem, gritariam: “Nós somos o sal, que tempera e faz artimanhas em pesquisas científicas”. Pois quando se levam em conta as diferenças cognitivas entre as espécies … das duas, uma: ou essa pesquisa diz absolutamente coisa nenhuma, ou os chimpanzés têm uma forma tão avançada de pensamento que nos seus 0,6% de diferença se escondem. Nessa região que nos ocultam, zombam de nós, os humanos (até prova em contrário), zombam de nós, eles, os chimpanzés, rindo de nossa pretensão em nivelá-los a um mesmo gênero. Ora, o caso pode não ser o de incluí-los no gênero Homo. Talvez fosse o caso de nos incluir no privilégio do gênero deles, os Pan  trogloditas.

Nos últimos tempos, temos sido cada vez mais assaltados por opiniões ligeiras, levianas, de cientistas que saem dos seus sapatos para emitir juízos universais. Já em O Gene da Burrice , e em Máquinas Inteligentes, discutíamos o profundo ridículo desses vôos sem asas. Mas desta vez a descoberta é mais ardilosa. Em lugar da simples e pura opinião, como a do prêmio Nobel que falava em isolar o gene da burrice, como se pudesse aprisionar num laboratório o processo social, ou como a do físico que discorria sobre máquinas que imitassem o pensamento, o que, convenhamos, em se tratando do dele não seria lucrativo para a máquina, desta vez o cientista nos brande 90 kb de pesquisa e uma conclusão amparada em números, em frios e exteriores percentuais.

Se nessa pesquisa não há fraude, como algumas vezes tem acontecido na história da ciência, conforme chamava atenção artigo publicado em La Insígnia, o Sobre girafas, mariposas, corporativismo científico e anacronismos didáticos, de Isabel Rebelo, se nessa pesquisa há somente um equívoco, um desnorteio de rumos, então seria a hora de uma volta à clássica discussão do que faz do homem um humano. Ou, antes, para ficar nos limites marcados por essa descoberta: seria a hora de se perguntar o que é que faz do chimpanzé um humano. Para os cientistas envolvidos nessa pesquisa não há dúvida: “Os genes, os genes”, seria a resposta. Já um romancista responderia: “A imaginação”. E completaria: “Não a do chimpanzé, mas a de quem trabalha sobre ele”. Ao que diria um produtor de televisão: “Sem dúvida, o lacinho vermelho na cabeça da fêmea da espécie. Isso dá uma graça especial à notícia”. Já os noticiaristas não teriam nenhum receio em observar: “Os 99,4%. Que mais querem? Pois 99,4 não são quase 100? E se a esses 99,4 você liga cientistas, gene, macaco e pesquisa, é fatal: é pura ciência”. Ao que completaria o seu editor, com água na boca: “Ciência ou não, o que importa? Esta é uma discussão sem sentido. O que vale é a versão, é a notícia. Chimpanzé e Homem, vizinhos, juntinhos. Um quadro desses é o que importa.”. Já o nosso adotado irmão dos 90 kb de pesquisa, com os seus compridíssimos braços, entre olhinhos buliçosos, nos advertiria: – Eu, se escrevesse estas linhas, não diria o que você disse. Contra genes e bananas não existem argumentos.

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8 respostas para “Textos

  • lucinha

    Lera as crônicas de URARIANO, é com receber a brisa amena e delicada de um fim de tarde recifense ,na orla de Boa Viagem ou ,no “quem -me quer” .Urariano são destes escritores do naipe de Antonio Maria,Sérgi Porto ,Rubem Braga este homem de sensibilidade acuradíssima que nos presenteia com a declaração apaixonante a uma menina de 17 anos ,comparando-a a um flor das mais belas é uma das mais belas que tive a honra de ler e o que dizer do vizinho que se arvora a ser melhor do que os menos aquinhoados? Se já leu BAUDELAIRE, com certeza leu PAUL VALÉRY ,que escreveu esta frase estupenda “EU ME DETESTEI, EU ME ADOREI-DEPOIS ENVELHECEMOS JUNTOS”adoro Valéry ,não me contive ,pois ele revela muito de todos nós.Urariano ,tu és um caçador de emoçoes como todo bom cronista que se preze.E tu és ,muito bom naquilo que fazes ,gentil homem nordestino e como disse SUASSUNA :”É BOM ,NÃO PORQUE É PERNAMBUCANO ,É PORQUE É BOM MESMO! Ler URARIANO É SEMPRE UM PRAZER INDIZÍVEL.Adimiração profunda ,tua leitora que se sente feliz em se-lo.Maria Lúcia,

  • Núbia

    Textos lidos, porém não relidos por falta de tempo.
    Sempre estou a procura de espaços onde possa parar
    e divagar ou viajar, fica a critério de cada um.
    Gosto da forma que escreve e da leveza que consegue
    dar a coisas corriqueiras, mas que nos tiram do sério
    muitas vezes.
    Quanto ao seu nome, acho-o diferente, assim como o meu
    que aprendi a gostar há pouco tempo. Custei a me acostumar
    com o seu som. mas hoje não me vejo com outro nome.
    Parabéns e abraços.

  • Luiz de Almeida

    Depois de “SOLEDAD NO RECIFE”, livro que devorei e que recebi com dedicatória do meu mais que Dileto Amigo Urariano, elaborar qualquer tipo de comentário sobre o que ele escreve é difícil. A dificuldade rola conjuntamente com minha indignação. Explico: Fico indignado e não consigo saber o motivo da mídia, principalmente da escrita, onde se amontoam críticos e literatos e jornalistas, não darem ao Urariano a devida atenção e uma divulgação maior dos seus textos. Não é só o “Soledad”. Lendo, copiando e relendo os textos aqui editados, até mesmo quem não conhece o Urariano e ainda não entrou em extase pq não leu o Soledad, tenho absoluta certeza que não fica indiferente. Sua forma e estilos são apaixonantes. Ele consegue, com uma simplicidade descomunal, prender o leitor até o final. Em alguns dos textos acima, quando os lia, parecia ouvir o Urariano contando tudo sentado numa mesa de bar. Ele, ao mesmo tempo que me impressiona, faz com que medram vaidades e vaidades por te-lo como amigo e amigo escritor, um grande “escrivinhador” diria Mário de Andrade; o Recifense Manuel Bandeira diria: “Andorinha lá fora está dizendo: – Passei o dia à toa, à toa!… depois que li Urariano”; Menotti Del Picchia e Sérgio Milliet, sem dúvida nenhuma, diriam: “Na Recife do Bandeira mora um escritor excelso de nome Urariano”.
    Como mencionei: “comentar os textos do Urariano é difícil” – para este que tornou seu fã de carteirinha.
    Dileto Amigo Urariano: “Abraços terno e fraterno”. Obrigado por permitir, mais uma vez, deliciar-me com Tuas Pérolas Literárias.
    “Esteja e Seja e Fique Feliz!
    Luiz de Almeida & Blog Retalhos do Modernismo

    • Márcia de Oliveira

      Olá, amigo Urariano!

      Maravilhoso o comentário do Luiz.. Aliás, como tudo o que ele escreve. Peço licença e faço minhas as suas palavras, principalmente, no tocante à mídia brasileira, que comete um crime hediondo em mostrar ao mundo, todos os dias, notícias de pouca relevância e pessoas de mero talento. Nosso país tem muito mais! Tem o autor de Soledad no Recife, Urariano Mota. Um perspicaz e talentoso escritor que deveria ser lido e seguido por multidões, quão perfeita é sua escritura! Quem sabe, algum dia, a crítica literária brasileira acorde…

      Parabéns, Urariano! Salve, salve!

      Abraço fraterno.

      P.S: Ainda lhe devo um comentário mais amplo sobre Soledad, obra que li e reli com muita atenção e satisfação. Faltou-me, na verdade, tempo e coragem, pois ainda tento encontrar as palavras certas para escrever um comentário à altura. O que não será tarefa fácil, acredite e compreenda.

  • Enilton Grill

    Caro Uraniano

    Agradeço imensamente as observações e a honra de tê-lo como leitor do AMÉRICAS.

    Parabéns pelo trabalho.

    Tens em mim um admirador de tua obra e postura ética.

    Abraço fraterno

    Enilton Grill

  • urarianomota

    Salve, Enilton. Um livro sempre se constrói com a leitura, com a sensibilidade de quem o lê.
    Eu sou grato por tua sensibilidade e percepção.
    Abraço fraterno.

    • Enilton Grill

      Gracias URARIANO

      Pelas palavras, mas, sobretudo, por teu trabalho

      Fundamental, essencial para a MEMÓRIA num país SEM MEMÓRIA.

      Abraço fraterno

      Enilton Grill

      eniltonamericasgrill.blogspot.com

  • Marcelo Vinicius

    Olá Sr. Urariano,

    Eu li uma crítica literária sua sobre o livro Budapeste de Chico Buarque e como eu tenho um blog num site de um jornal interessante do inteior baiano, gostaria de publicar a sua crítica lá, pode ser? O site é http://www.jornalgrandebahia.com.br

    E a crítica sua que eu li foi essa, veja se confere: http://www.espacoacademico.com.br/043/43cmota.htm

    Desde já, agradeço pela atenção e parabéns pelo trabalho.

    Marcelo Vinicius
    E-mail: marcelovmb@gmail.com

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